A estrada que levava Ryan Dawson e a prefeita Amelia Harper era longa, sinuosa e deserta. Conforme o carro se afastava da cidade, os arranha-céus em ruínas e as ruas sufocadas pelo crime ficavam para trás. No lugar deles surgia um horizonte vazio. Hipton começava a parecer uma lembrança distante, um mundo à parte.
Ryan observava Amelia pelo canto do olho. Ela estava tensa, mais do que jamais estivera durante a guerra nas ruas. Aquilo dizia muito.
— Quer me dizer para onde estamos indo? — ele perguntou, quebrando o silêncio, a desconfiança evidente na voz.
Amelia manteve os olhos fixos na estrada.
— Astra Corporation.
Um arrepio percorreu a espinha de Ryan.
O nome carregava um peso que poucos compreendiam. A Astra não era apenas uma empresa. Era uma entidade. Tecnologia avançada, contratos militares sigilosos, influência espalhada por todo o país. Hipton nunca deveria ter chegado perto dessa organização.
— Desde quando Hipton aceita ajuda de megacorporações? — ele resmungou.
— Desde que foi encurralada contra a parede.
Ryan não respondeu. Apenas observou o carro atravessar um portão fortificado e descer em direção a um complexo subterrâneo escondido no meio do nada. Ali havia segredos. Segredos grandes.
E agora ele fazia parte deles.
O interior do complexo era impecável, frio, quase estéril. Corredores brancos, luzes perfeitas, o eco dos passos quebrando o silêncio. Ryan caminhava sentindo-se deslocado. Aquele lugar não tinha vida, nem alma.
Então ele surgiu.
— Sr. Dawson.
A voz era suave, mas carregava um peso difícil de ignorar. Ryan ergueu os olhos e encontrou Gabriel Moreau, o CEO da Astra Corporation.
Alto, elegante, terno impecável, sem um vinco fora do lugar. Cada movimento era calculado. O olhar, atento e preciso, como se já soubesse tudo sobre Ryan antes mesmo de abrir a boca.
— Pode pular a formalidade? Prefiro ir direto ao ponto — disse Ryan.
Moreau sorriu de leve, mas seus olhos permaneceram frios.
— Claro. Então me diga, o que você faria para salvar Hipton?
Ryan estreitou os olhos.
— Qualquer coisa.
— Ótimo — respondeu Moreau. — Então você veio ao lugar certo.
Eles o conduziram até uma sala subterrânea.
As paredes de vidro reforçado revelavam um laboratório onde engenheiros e cientistas se moviam em torno de algo gigantesco.
No centro da sala, estava a armadura.
Fúria Vermelha.
Um colosso de aço e circuitos, vermelho e negro como sangue coagulado. Havia algo nela que parecia vivo. Linhas de energia percorriam o exoesqueleto, pulsando como uma respiração silenciosa, carregada de poder contido.
— Que diabos é isso? — Ryan perguntou, incapaz de desviar o olhar.
Moreau colocou as mãos nos bolsos, satisfeito.
— O próximo passo na guerra contra o crime.
Aproximou-se do vidro, como alguém admirando sua própria obra-prima.
— Fúria Vermelha não é apenas uma armadura. É um amplificador.
Ryan lançou-lhe um olhar desconfiado.
— Amplificador?
— A tecnologia reage às emoções do usuário — explicou Moreau. — Mais precisamente, à raiva.
O silêncio se tornou pesado.
Ryan sentiu algo apertar seu peito. Um aviso instintivo.
— Ela fica mais forte com a raiva? — perguntou.
Moreau sorriu.
— Exatamente. Quanto mais intensa a fúria, mais forte o usuário se torna. Mais rápido. Mais resistente. Mais implacável.
Ryan voltou a encarar a armadura. Agora percebia algo além do metal. Algo que aguardava, como um predador adormecido.
Amelia cruzou os braços.
— Eu trouxe você porque a cidade precisa de mais do que a polícia, Dawson. Precisamos de algo que os criminosos temam.
Um nó se formou na garganta de Ryan.
— E se eu acabar me tornando tão perigoso quanto eles?
Moreau se virou para ele.
— Essa é a pergunta certa.
Ryan permaneceu diante da armadura, a mente em ebulição.
Ele queria vingança. Precisava dela.
Mas sabia, em algum lugar dentro de si, que entrar naquele traje significava que não haveria mais volta.
— Você precisa entender uma coisa, Dawson — disse Moreau, com uma calma cirúrgica. — O Fúria Vermelha não transforma ninguém. Ele apenas revela o que já está aí dentro.
Ryan fechou os olhos por um instante. A explosão voltou à sua mente. O corpo carbonizado de Ethan. O grito preso em sua garganta desde aquele dia.
Quando abriu os olhos, a decisão já estava tomada.
— Como eu ativo isso?
Minutos depois, Ryan estava dentro da armadura.
E o mundo mudou.
A dor veio primeiro. Uma onda quente, elétrica, atravessando pele, ossos e músculos. O traje se ajustava a ele, apertando, envolvendo, como se estivesse se fundindo ao seu corpo.
Então veio a sensação.
A raiva.
Os circuitos pulsaram como um coração vivo. A energia vermelha o envolveu como uma tempestade contida. No visor, dados se multiplicavam. Batimentos acelerados. Força ampliada. Reflexos sobre-humanos.
O chão tremeu sob seus pés.
Ele não estava apenas vestindo a armadura. Ele era a armadura.
— Impressionante… — murmurou Moreau, observando a energia vermelha se expandir ao redor do traje.
Ryan fechou os punhos. O metal rangiu sob a pressão.
E pela primeira vez desde a morte de Ethan, ele sentiu que tinha poder para agir.
Ainda assim, algo dentro dele sussurrava que esse poder não viria sem custo.
