Senti minha consciência despertar lentamente. Meu corpo estava fraco, cansado, totalmente sem energia, como se cada movimento fosse um esforço impossível. Tentei abrir os olhos e observar meu entorno.
Percebi que estava deitada sobre algo semelhante a uma cama, em um templo de pedra. Tochas iluminavam as paredes, revelando rostos esculpidos que me deixavam observar em silêncio. Tentei me levantar, mas o esforço era grande demais. Suspirei, deitei novamente e apenas olhei ao redor, absorvendo o ambiente estranho.
— Ora, ora… você já acordou? — surgiu uma voz rouca e idosa.
Virei a cabeça e encontrei um homem muito velho, com pele morena, todo enrugado, com uma boca sem dentes, sentado de pernas cruzadas. Ele carregava um grande braseiro sobre a cabeça. Eu me assustei… mas, de alguma forma, senti sua divindade.
— Quem é você? — querido, cautelosa, mas, ainda zona.
O velho riu com um som áspero, mas acolhedor.— Não se preocupe, não quero lhe fazer mal. Sou Huehueteotl, deus do fogo do panteão asteca.
Percebi sua força, muito maior que a minha, e parei automaticamente na defensiva.
— Quanto tempo fiquei inconsciente? — querendo, tentando avaliar minha condição.
— Cinco dias — respondeu ele calmamente.
Percebi, então o meu estado, o quanto estava exausta, mas eu ainda queria muito aprender sobre este mundo e sobre os deuses que nele habitavam. Huehueteotl inspirou meu estado debilitado e falou com a mão, liberando um fluxo de energia divina sobre mim. Meu corpo imediatamente sentiu força novamente, e consegui sentar.
— Não há de quê! — respondeu ele alegremente. — Venha, me acompanhe.
Seguindo pelo templo, pensando logo que ele poderia desejar de mim, fomos até uma sala de jantar enorme, com uma mesa repleta de comida. Ele se acomodou no assento principal e indicou que eu sentasse ao seu lado. Ele pegou uma coxa de galinha e iniciou uma verdadeira saga econômica: mordia, pressionava, virava a carne, bufava, tentava mastigar de todos os ângulos… mas sem dentes, nada funcionava. Cada tentativa acompanhada de complicações dramáticas:
— Este frango é duro demais!— Por que eu fiz isso?— Isso é uma afronta aos deuses sem dentes!
Eu não consegui conter o riso. Ele, percebendo, apenas riu mais, balançando a cabeça.
Enquanto comíamos, Huehueteotl começou a conversar comigo sobre minha personalidade e propósitos. Ele explicou que comprovou minha existência ao notar algo incomum em seu território; outra fé havia adentrado seu domínio, então usando seu sentido divino, fez uma varredura e me encontrou caída na fronteira de seu domínio.
À medida que ouvia suas palavras, comecei a compreender o contexto ao meu redor. Pela forma como ele descrevia o povo e o território, percebeu que ainda era muito antes da colonização da América, em algum ponto do México. O modo como a vila vívia, as tradições simples e os hábitos cotidianos indicavam a época, sem que ele precisasse dizer nada diretamente.
Ele continuou:— Gostei de sua visão sobre a morte. Sua maneira de ensinar, de conduzir os vivos para compreender os mortos… isso é raro. Uma dádiva, realmente.
Huehueteotl inclinou-se levemente a cabeça, observando-a com mais atenção, como se só então realmente a visse.
— Mas diga-me — falou com curiosidade sincera — quem é você, pequena deusa? Qual é o teu nome… e qual é o domínio que carregas?
Ela respirou fundo. Ainda fraca, mas firme. Levou a mão ao peito, como quem honra a própria essência.
— Eu sou Catrina — respondi com dúvidas. — A deusa da passagem e dos mortos.
O deus idoso preguiçoso as sobrancelhas, surpreso. O sorriso torto voltou ao rosto enrugado.
— Passagem… — murmurou. — Não fim. Não há sombra de dúvida.
Ela assentiu lentamente.
— Não sou o término da vida — contínuo. — Sou o caminho. O momento em que a alma é acolhida e guiada futuramente.
Huehueteotl riu baixo, um riso profundo e antigo.
— Agora tudo faz sentido…
Catrina permaneceu em silêncio por alguns instantes, observando o deus idoso lutando novamente com a comida, até finalmente perguntar, com a voz ainda baixa:
— Por que me salvastes?
Huehueteotl interrompeu o movimento da mão. O sorriso largo, sem dentes, lentamente lento. Ele ficou em silêncio por um longo momento, como se revisasse memórias antigas.
— Curiosidade — respondeu por fim. — Apenas curiosidade.
Eleu o braseiro com mais apoio e voltou o olhar para ela.
— Quando senti uma fé diferente surgindo em meu território, imaginei que fosse apenas mais um deus tentando se importar. Isso acontece o tempo todo. Mas… algo estava errado. Não havia medo. Não houve sacrifícios.
Huehueteotl então começou a narrar tudo o que observou durante os cinco dias em que Catrina ocorreu de forma inconsciente.
Ele contou que, ao seguir aquela estranha presença, encontrou um caçador diante de sua casa. Em frente à porta, havia um pequeno altar improvisado, simples e respeitoso. O homem depositava frutas, flores e alimentos com cuidado, como quem conversa em silêncio com alguém querido.
Enquanto isso, crianças passavam correndo, rindo, brincando. Uma delas descobriu o caçador e o chamou para brincar também — mas parou ao notar sua seriedade. Curiosas, como outras se aproximam.
perguntaram o que ele fazia.
Ele respondeu que estava comemorando os mortos. Não chorando, não pedindo favores. Comemorando.
As crianças estranharam. Perguntaram como aquilo era possível. Como a morte poderia ser comemorada. Como uma deusa dos mortos não poderia ser fria, cruel ou injusta, se era ela quem tirava as pessoas da vida.
Então ele explicou — com paciência, com carinho — que a morte não era um castigo. Que toda vida precisa de um fim para ter significado. Que a deusa dos mortos não roubou a vida, apenas a colhia quando ela se completou. Que amar a morte não desprezou a vida, mas respeitá-la profundamente.
Falou que a morte era um descanso, uma travessia, um reencontro. Que ninguém foi esquecido. Que cada memória vivia enquanto alguém se lembra.
Huehueteotl disse que aquelas palavras o deixaram imóvel.
As crianças, tocadas por aquela ideia, decidiram se juntar ao ritual. O caçador o ensinado com simplicidade: lembrar dos que partiram, oferecer algo feito com afeto, guardar o nome no coração.
Quando a noite chegou, elas estavam dormindo.
E foi então que os mortos vieram.
Em sonhos, parentes falecidos nasceram sorrindo, cantando, brincando. Não como sombras ou avisos, mas como presenças afetuosas. Riram com as crianças, dançaram, celebraram a própria lembrança.
Ao amanhecer, os relatos se espalharam. Pais incrédulos ouviram, riram, negaram. Mas os sonhos se repetiram. Outras crianças sonharam. Outros lares sentiram a mesma presença.
O ritual se espalhou...
— Foi nesse momento — contínuo Huehueteotl — que eu decidi ver com meus próprios olhos. Não por raiva. Mas porque nunca vi um deus dos mortos ensinando algo assim.
Ele riu baixinho.
— Todos os deuses da morte que conheço governam pelo medo. Pela distância. Pela frieza. Mas tu… tu falas de morte como quem fala de lar.
O olhar dele voltou para Catrina, agora sério e respeitoso.
— E foi por isso que te salvei. Apenas curiosidade.
O templo ficou em silêncio.
Catrina sentiu algo aquecido dentro de si — não poder, não divindade, mas certeza.
Ela compreendeu que, mesmo inconsciente, sua fé já caminhava sozinha pelo mundo.
E que a morte, afinal, poderia ser lembrada com amor.
