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Chapter 1 - O Fantasma da Máquina

O letreiro de Hollywood brilhava no horizonte de Los Angeles, mas para Leo, ele parecia menos um símbolo de sonhos e mais uma lápide iluminada por LEDs de última geração. Era fevereiro de 2026, e a "Cidade dos Sonhos" havia se transformado em uma linha de montagem implacável de algoritmos e inteligência artificial.

Leo ajustou o fone de ouvido, ignorando a estática. Ele era um production assistant, ou, no jargão cruel do set, um "gofer" — o cara que "vai buscar" tudo o que os outros não querem. Aos 34 anos, seu currículo era uma colcha de retalhos de humilhações: limpar vômito de trailers de estrelas adolescentes, organizar "lock-downs" em ruas poeirentas e garantir que o café do diretor estivesse exatamente a 72 graus Celsius.

"Leo! Cadê a porcaria do latte de aveia da Zendaya? E me disseram que o lixo do Estúdio 4 ainda não foi recolhido!" A voz do segundo assistente de direção (2nd AD) estalou no rádio como um chicote.

"A caminho, senhor," Leo murmurou. Sua voz estava rouca. Ele estava em sua 19ª hora de turno. Em 2026, com os prazos de lançamento esmagados pela competição entre a Netflix e a recém-fundida Warner-Discovery, o descanso era um luxo para quem tinha nome nos créditos, não para os "fantasmas" da limpeza.

Ele atravessou o pátio da Paramount, carregando uma bandeja de papelão e um saco de lixo industrial. O set de Spider-Man: Brand New Day estava em polvorosa. Braços robóticos de alta precisão moviam câmeras 8K enquanto geradores de IA processavam cenários em tempo real, tornando assistentes humanos como ele cada vez mais obsoletos e descartáveis.

Leo sentiu uma pontada aguda no braço esquerdo. Ele a ignorou, atribuindo-a ao esforço de carregar equipamentos de iluminação pesados mais cedo. Naquela indústria, 75% dos trabalhadores sofriam lesões físicas, mas reclamar significava ser substituído por um estagiário mais jovem ou por uma solução automatizada.

Ele entrou no trailer de maquiagem. O cheiro de spray de cabelo e produtos químicos o deixou tonto. Ele viu o diretor, Kevin Williamson, discutindo ajustes finais de roteiro para a próxima cena de Scream 7 que filmaria no estúdio ao lado. Leo estendeu o café, mas suas mãos tremeram.

"Você está atrasado, Leo. De novo," o diretor disse, sem sequer olhar para ele.

"Desculpe, eu..."

Uma pressão súbita, como se um elefante estivesse sentado em seu peito, cortou sua fala. Leo tentou respirar, mas o ar parecia gelatina. A bandeja de café escorregou de seus dedos, espalhando o líquido fervente pelo chão de linóleo impecável.

"Ei! O que você está fazendo?" alguém gritou.

Leo não respondeu. O mundo começou a escurecer pelas bordas. Ele caiu de joelhos, o coração batendo em um ritmo frenético e irregular antes de dar um solavanco final e parar. Ele pensou em todos os roteiros que escreveu e que ninguém leu. Pensou nas décadas de trabalho braçal em troca de um salário que mal pagava seu aluguel em Burbank.

Enquanto seu rosto atingia o chão frio, a última coisa que ouviu foi a voz impaciente do diretor:

"Alguém chame a limpeza. Temos um cronograma a seguir."

A escuridão o engoliu. O cansaço, finalmente, havia terminado. Mas, no vácuo do fim, um eco distante de 1965 começou a sussurrar em sua mente, trazendo o cheiro de película de nitrato e o som de máquinas de escrever que ele nunca deveria ter conhecido.

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