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Chapter 16 - O Rugido da Mudança

Fevereiro de 1966 trouxe consigo um ar fresco e carregado de eletricidade para as ruas de Hollywood. Leo Stone estava parado diante de uma banca de jornais na Sunset Boulevard, o sol da manhã refletindo no capô de seu Mustang prata. Ele não estava ali para ver as manchetes sobre a Guerra do Vietnã ou a corrida espacial. Seus olhos estavam fixos na prateleira de baixo, onde o papel barato e a tinta vibrante da Charlton Publications criavam um contraste violento com as revistas de moda e política.

Lá estava: "Auto-Phantoms #1".

A capa, desenhada por Steve Ditko, mostrava um Pontiac GTO 1965 no meio de uma transformação impossível. Peças de motor se desdobravam como ossos metálicos, pistões tornavam-se músculos hidráulicos e os faróis brilhavam com uma inteligência fria e alienígena. Leo viu um grupo de adolescentes de cabelos compridos e jaquetas de couro cercarem a banca.

— Olhem isso! — gritou um dos garotos, pegando o exemplar de doze centavos. — O carro se transforma em um soldado de metal! Isso é muito mais legal que o Superman.

Leo Stone sorriu, um sorriso que carregava seis décadas de conhecimento sobre o que tornava uma franquia imortal. Ele sabia que a Charlton, historicamente chamada de "Reia da Sucata" por usar prensas de caixas de cereal, agora possuía a propriedade intelectual mais cobiçada das bancas. Graças à sua frota própria de caminhões (Capital Distribution), os exemplares haviam chegado simultaneamente em Chicago, Nova York e Los Angeles, algo que nem a Marvel de Stan Lee conseguia garantir com perfeição na época.

Ele comprou dez exemplares, pagando com uma nota de um dólar e ignorando o troco. Enquanto voltava para o carro, Leo sentiu o peso do futuro. Ele não estava apenas vendendo revistas; ele estava treinando uma geração para o espetáculo visual que viria a seguir.

...

Jantar no Chasen's: Luzes e Sombras

Às 20:00, Leo Stone entrou no Chasen's, o restaurante que era o confessionário secular da elite de Hollywood. O ambiente era dominado por painéis de madeira escura, cabines de couro vermelho e o cheiro inconfundível do famoso chili da casa e de bifes servidos com molho Thousand Island.

Sharon Tate já o esperava em uma cabine de canto. Ela vestia um minivestido de seda pêssego que destacava seu bronzeado recente e seus cabelos loiros volumosos. Seus grandes olhos castanhos brilharam quando Leo se aproximou.

— Você está atrasado, Arquiteto — disse ela, com uma voz suave e melodiosa que parecia flutuar acima do tilintar dos talheres.

— O trânsito na Mulholland Drive é o único diretor que não aceita minhas ordens, Sharon — Leo respondeu, sentando-se e pedindo um uísque puro.

Durante o jantar, a conversa fluiu com uma facilidade que assustava Sharon. Leo não falava sobre si mesmo com a arrogância típica dos produtores que tentavam impressioná-la. Ele falava sobre cinema como se estivesse descrevendo uma ciência exata que o mundo ainda não compreendia.

— Eu li o tratamento de Christine de novo — disse Sharon, tocando levemente a borda de sua taça de vinho. — Leigh Cabot... ela é mais forte do que qualquer personagem que Ransohoff já me ofereceu. Ela não é uma vítima, Leo. Ela é uma sobrevivente.

— Hollywood tem o hábito de confundir beleza com fragilidade, Sharon. Eu não cometo esse erro.

Houve uma pausa. Sharon olhou para ele, sua expressão tornando-se subitamente séria.

— Às vezes eu olho para você e sinto que você não pertence a este lugar. Não a este restaurante, ou a este ano. Você tem uma calma... como se já soubesse como tudo isso termina.

Leo Stone sentiu o coração falhar por um segundo. Ele olhou para a mulher à sua frente, a mulher que o mundo choraria em 1969, e por um breve momento, a máscara do magnata cínico caiu.

— Eu apenas vi o que acontece quando as pessoas certas tomam as decisões erradas, Sharon. Eu voltei... quer dizer, eu decidi que não deixarei o talento ser desperdiçado. Nem o seu, nem o de ninguém que valha a pena.

O flerte estava no ar, denso como a fumaça dos cigarros Lucky Strike que Leo acendeu. Mas o momento foi interrompido pela figura imponente de um homem em um terno escuro que parou diante da mesa.

Era um executivo da General Motors, acompanhado por dois advogados que pareciam ter sido esculpidos em granito.

— Sr. Stone — disse o executivo, sem qualquer preâmbulo. — Sou Harold Miller, da divisão jurídica da Chevrolet. Recebi o primeiro número de sua... publicação. O fato de o vilão, "Corvairon", ser uma representação direta do nosso Chevrolet Corvair é uma afronta inaceitável. — Ele colocou um exemplar de Auto-Phantoms sobre a mesa, manchando o linho branco. — Ralph Nader já causou danos suficientes à nossa imagem com aquele livro ridículo. Não deixaremos que um autor de thrillers use quadrinhos para ensinar as crianças que nossos carros são monstros.

Leo Stone nem sequer levantou os olhos de seu uísque.

— Sr. Miller, o Corvair é conhecido por ser instável em qualquer velocidade. Eu apenas dei a essa instabilidade uma consciência e uma arma de plasma. — Leo finalmente olhou para ele, seu olhar sendo tão frio quanto o gelo em seu copo. — O senhor quer me processar? Ótimo. Deixe que os jornais escrevam: "GM processa autor de best-sellers por causa de um robô". Isso vai dobrar as vendas da Charlton até sexta-feira. E, enquanto isso, a Ford Mustang está me oferecendo um contrato de licenciamento para que o herói da história, "Prime", use a grade frontal do Mustang 66.

Sharon Tate observava a cena com um misto de choque e admiração. Ela nunca vira alguém desafiar um titã industrial com tanta indiferença.

— Saia da minha mesa, Miller — Leo disse, sua voz baixando para um tom perigoso. — Eu não sou um gopher que você pode intimidar. Eu sou o homem que decide o que esta geração vai desejar comprar. E, no momento, eles desejam robôs. Se a GM não quer estar no lado dos heróis, talvez o mundo se esqueça de que vocês ainda existem.

O executivo da GM travou, a fúria lutando com a percepção súbita de que Stone não estava blefando. Ele se retirou sem dizer mais nada, seguido por seus advogados.

...

A Lição de Mulholland Drive

Após o jantar, Leo dirigiu seu Mustang prata com Sharon no banco do passageiro. Eles subiram em direção à Mulholland Drive, onde a vista da cidade era de um Technicolor hipnotizante.

Leo parou o carro em um mirante deserto. Ele pegou um copo de água que mantinha no suporte central e o encheu até a borda.

— O que você está fazendo? — perguntou Sharon, curiosa.

— Vou te mostrar o que é controle absoluto, Sharon. O cinema, assim como a vida, é sobre manter a calma sob pressão.

Leo arrancou com o Mustang, entrando nas curvas sinuosas da estrada de montanha com uma precisão técnica que Sharon nunca vira em um motorista comum. Ele deslizava o carro nas curvas, o pneu cantando brevemente, mas a água no copo nem sequer derramava uma gota. Era a técnica de entrega que ele aprendera com Initial D e adaptara para seu próprio uso estratégico.

— Isso é impossível! — Sharon exclamou, segurando-se na alça da porta enquanto o Mustang devorava as curvas.

— É técnica, Sharon. É visão. — Leo parou o carro novamente no topo da colina. Ele olhou para ela, a luz da lua destacando a doçura de seu rosto. — Eu vou lançar um novo quadrinho no próximo mês. Chame-se "Midnight Drift". É sobre o que acabamos de fazer. Sobre jovens que buscam a perfeição no asfalto em vez de fugir da realidade.

Sharon Tate aproximou-se dele, o cheiro de seu perfume floral inundando a cabine do Mustang.

— Leo Stone... você é o homem mais estranho e fascinante que eu já conheci.

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