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Chapter 10 - Arco 3: Ponto de Ignição; Edição #7: O CONFRONTO

Página 1

O Tabuleiro Está Posto

O silêncio que antecede a tempestade pairava sobre o laboratório-prisão, mas na mente da Dra. Herika Rodrigues, o barulho era ensurdecedor.

Diante do vidro escuro de sua contenção, ela encarava o próprio reflexo, mas o que via ia muito além de seu rosto cansado.

Em sua imaginação científica, dois mundos colidiam: o vermelho agressivo dos códices Exus e o Dourado curativo do Gênesis.

Era a dualidade de sua própria criação flutuando diante dela.

Tentando manter a calma em meio ao caos genético que ajudara a criar, ela sussurrou para si mesma, selando um pacto silencioso:

HERIKA (sussurro firme):

— É isso. Hora de encarar o destino.

Enquanto a cientista aceitava seu fardo no isolamento estéril, quilômetros dali, a atmosfera era elétrica e digital.

 

Numa Lan House qualquer de bairro, camuflado por um boné e pelo anonimato, Valtinho operava nas sombras.

Ele jamais usaria seus próprios equipamentos para algo tão grande.

Seus dedos voavam pelo teclado engordurado, finalizando os preparativos para a noite que mudaria tudo.

O firewall estava em modo de emergência, e a ansiedade do nerd se misturava com a empolgação técnica.

VALTINHO (geek sussurrando):

— Hardware ULTRA modo.

— Firewall no talho.

- Sistemas vão colidir... bug ou bang. Bora ver.

Agora é só esperar esses dois sistemas colidirem pra ver se rola um choque no sistema ou um Bug total.

Mas nem todos operavam nas sombras da periferia.

No coração do império farmacêutico, na gélida e temida Sub-seção C3, Mauro Magnus conduzia seu tour macabro.

O vapor frio subia do chão, criando uma névoa de terror ao redor do Deputado Edu.

O empresário, senhor absoluto daquele caos ordenado, olhou para seu convidado com a arrogância de um deus exibindo seus monstros de estimação.

MAURO MAGNUS (ironia pingando):

— Preparado pra visão maior, Edu?

 

 

Longe daquele frio subterrâneo, a tarde ensolarada iluminava a fachada destruída de um Loft de luxo.

A parede em reforma era um lembrete violento da de uma noite de pura amnésia, mas JC Andrade ainda se questiona.

Com a conta bancária recheada e a moral restabelecida, o herói estava de volta ao jogo.

Ignorando o caos arquitetônico, ele girou no dedo a chave de seu humilde HB20 amarelo, o contraste perfeito para sua nova realidade.

JC (revigorado, carioca):

— Eh, JC... ta na hora das compras.

— Que hoje e dia de Resenha

A energia solar de JC, no entanto, não alcançava o escritório de Ivan Alencar na Rede News.

O ambiente ali era pesado, carregado de cores escuras e presságios ruins.

A guerra interna na redação, a invasão dos engravatados da M. CORP e o distanciamento de Vanessa formavam um turbilhão que esmagava o chefe.

Perdido em pensamentos e fisicamente abalado, Ivan massageou as têmporas.

IVAN (paulista fraco):

— Preciso comer... glicose baixa pra caralho.

Enquanto Ivan lutava contra a fraqueza, a eficiência militar reinava na sala de monitoramento do laboratório.

 

Adriele, fiel escudeira, comandava a operação de recuperação de dados. Pen drives e HDs eram separados com precisão cirúrgica.

ADRIELE (ronronando ordem):

— Rápido, seus molengas! Baixem os vídeos! Doutor Marcos tá esperando!

A determinação de Adriele contrastava dolorosamente com a desolação de Gabi.

Sentada no chão de sua sala, cercada por roupas coloridas e disfarces de missões passadas, a alegria da redação parecia ter se esgotado.

Vendo seu chefe destruído e sua melhor amiga transformada numa bomba-relógio, Gabi sentiu o peso da impotência.

GABI (Baixada impotente):

— Gente... que eu faço pros meus brother agora?

A resposta para o destino de todos eles estava prestes a ser revelada de volta ao laboratório, na fria Sub-seção C3.

Fernando, a muralha intransponível, aproximou-se de uma das macas cobertas. Sua lealdade a Magnus era absoluta, e sua frieza superava a temperatura da sala.

FERNANDO (grave):

— Sim, Senhor Magnus.

 

Ao lado dele, o Deputado Edu, que no Congresso rugia como um leão, agora tremia como um garotinho.

O pavor estava estampado em sua face suada.

Ele sabia que estava prestes a cruzar uma linha sem volta.

DEPUTADO EDU (pensamento jagunço):

(Meu Deus, sô... que trem doido é esse? Onde eu me enfiei?)

E enquanto o horror se desenrolava no subsolo, a fúria explodia na superfície.

Na calçada em frente à Rede News, Vanessa desabou. Seus olhos seguiam o carro blindado preto da M. CORP que se afastava, levando consigo a autonomia de seu jornal e a certeza da manipulação de Magnus.

O choro dela não era de derrota, mas de uma promessa visceral.

De joelhos no concreto quente, ela gritou para o mundo e para si mesma:

VANESSA (grito visceral, carioca):

— NÃO! NÃO ACEITO ISSO! JURO POR DEUS, MAGNUS! VOU TE DESTRUIR!

 

Página 2:

Refúgio na Praça de Alimentação

Na calçada quente em frente à emissora, a fúria de Vanessa se dissolveu em exaustão.

Gabi, sempre o porto seguro em meio ao naufrágio, como uma protetora apareceu, ajoelhou-se e envolveu a amiga num abraço apertado, ignorando os olhares dos pedestres.

A ruiva chorava no ombro da morena, liberando a tensão de semanas de investigação e derrotas.

GABI (Baixada acolhedora):

— Ruiva... chora aí, solta tudo.

— Mas agora bora encher o bucho, doida. Shopping ali do lado. Sai dessa zona de guerra um pouco.

Minutos depois, a atmosfera mudou.

Trânsito virando burburinho de praça de alimentação.

Fritura no ar, garfos tilintando.

Mas elas não buscaram o ar condicionado; foram direto para a área externa, o santuário dos fumantes e dos desesperados.

Lá, numa mesa isolada, Ivan Alencar estava sentado sozinho.

O chefe da Rede News parecia pequeno diante de sua bandeja vazia, esperando uma refeição que provavelmente não teria gosto algum.

Seu rosto estava carregado, as linhas de preocupação mais profundas do que nunca.

Ao entrarem na varanda, Gabi avistou a silhueta familiar e curvada.

GABI:

— Olha o Chefinho ali... todo murcho.

As duas caminharam até a mesa.

Ivan levantou os olhos e viu Vanessa — olhos inchados, maquiagem borrada.

Medo virou alívio + pai preocupado.

IVAN (Morumbi preocupado, tom gerencial carinhoso):

— Nessa, meu bem...

— Senta aqui, please.

- Come qualquer coisa.

— Tá um caco, garota. 

- Glicose baixa, só cigarro e estresse faz dias. Budget de saúde zerado.

Burburinho ao fundo. Garfos, risadas distantes. Foco na mesa — respiro tenso no inferno corporativo

Página 3: Nicotina e Silêncio

O apelo de Ivan encontrou uma parede de concreto.

Um close no rosto de Vanessa revelava o mapa da devastação: palidez, hálito de pura nicotina, olheiras profundas e um olhar focado no vazio, em algum ponto distante onde o mundo não estava desmoronando.

VANESSA (Carioca quebrada, voz morta):

— Tô sem fome, Ivan.

- Zero apetite.

— Estou sem fome, Ivan.

Vanessa Ignorando completamente a presença e a preocupação dos dois buscou seu único consolo, com a mão tremendo pegou o cigarro amassado do maço e um isqueiro, clicou alto como tiro,.

Ivan olhou para o maço quase vazio sobre a mesa de plástico, a apreensão crescendo em seu peito.

IVAN (Paulista preocupado, suave):

— Amor... esse aí é o terceiro maço hoje.

— Stress level off the charts, Nessa. 

- Take a break.

Suas mãos tremiam levemente enquanto tentava acender um cigarro do maço amassado e levar aos lábios.

O comentário foi o estopim.

Vanessa finalmente virou o rosto para encará-lo, e não havia gratidão em seus olhos, apenas uma irritação exausta e cortante.

(virando, irritação afiada):

— Ivan... vai tomar no cu, por favor.

 

 

Antes que Gabi pudesse intervir, ela completou, fuzilando a amiga com o olhar:(Fuzila Gabi)

— E tu, Gabi? Nem abre a boca que eu não tô a fim de papo furado.

[SILÊNCIO PESADO]

O silêncio caiu sobre a mesa como uma bigorna.

Foi um dos momentos mais constrangedores da história daquele trio, Gabi e Ivan trocaram um rápido olhar e mastigavam uma comida sem gosto.

Vanessa na nuvem tóxica dela se concentrava em tragadas profundas marcando o tempo que se arrastava em torno da repórter.

De repente, Vanessa quebrou o gelo, mas sua voz estava vazia de qualquer emoção.

— Ivan, que horas são?

Ivan, grato por qualquer interação que não envolvesse xingamentos, olhou rapidamente para o relógio de pulso.

— Uma e vinte, minha linda.(13:20h)

NARRADOR:

" Nicotina como escudo. Silêncio como prisão. Respiro falso no inferno corporativo."

 

 

 

 

 

 

 

Página 4: O Alvo na Multidão

O clima na mesa continuava pesado, uma nuvem de fumaça e silêncio pairando sobre o almoço.

Vanessa tragava, Ivan mastigava mecanicamente.

Gabi, tentando preencher o vazio emocional com comida, preparava uma garfada generosa.

Mas garfo parou no ar.

Gabi congelou.

Olhos arregalados fixos no horizonte — além das mesas sujas, bandejas abandonadas mas choque foi tão grande que o sistema respiratório dela falhou.

GABI (engasgada, tossindo forte):

— Humm... COF COF

— OLHA... NESSA... OLHA LÁ, PORRA!

Com a mão trêmula, ela apontou o garfo desesperadamente para a multidão, incapaz de articular palavras.

Vanessa, irritada com o barulho, girou o pescoço com desdém, sem o menor interesse no que quer que tivesse causado o ataque da amiga.

(irritada):

— Que foi agora, Gabi?

Mas assim que seus olhos seguiram a direção do garfo, o mundo parou.

A apatia, o cansaço, a depressão... tudo evaporou.

Para Vanessa, foi como se um holofote divino tivesse se acendido no meio da praça de alimentação.

Atravessando a multidão, caminhando casualmente entre famílias e adolescentes, estava ele.

Vivo. Real. E bem ali.

 

Um close nos olhos Negros de Vanessa mostrou a transformação imediata.

A chama da esperança e da adrenalina reacendeu, queimando a névoa de nicotina.

Ivan, vendo a amiga roxa de tossir e a crush paralisada, olhou de uma para a outra, completamente perdido.

IVAN (confuso, paulista):

— Que que tá rolando, gente? What's up?

Gabi finalmente conseguiu engolir o ar e a comida, recuperando o fôlego num suspiro dramático.

GABI (trêmula, apontando):

— É... ELE! O cara da foto! JC, porra! 

 

Página 5:

O Fantasma e a Perseguição

Como se puxada por um ímã invisível, Vanessa se levantou lentamente da cadeira.

O cigarro caiu esquecido no chão.

Seus olhos estavam vidrados, focados no alvo que representava sua salvação.

O transe da depressão fora substituído pelo transe da caçada.

VANESSA (Carioca caçadora, sussurro trêmulo):

— É ele... finalmente achei o cara!

Ivan, ainda perdido na tradução daquela cena, segurou o braço da crush, tentando trazê-la de volta à realidade.

IVAN (preocupado, gerencial):

— Ruiva, calma aí! Ele quem? What's the target?

Gabi, recuperando a capacidade de falar (mas não a compostura), gritou, atraindo olhares das mesas vizinhas.

GABI (Baixada explodindo, gritando):

— O CARA, IVAN! O JC DA FOTO! TÁ ALI, Ó, SEU LERDO!

Vanessa, energizada pela confirmação da amiga, virou-se com uma urgência dramática, pronta para correr, para gritar, para confrontar o homem que mudaria o destino da Rede News.

— Bora falar com ele! AGORA! Lead da vida!

 

Mas quando seus olhos voltaram para a multidão... o "holofote" havia se apagado.

O corredor estava cheio, mas o alvo tinha desaparecido.

O rosto de Vanessa se desfez numa máscara de choque.

(choque puro):

— Ué... pra onde ele foi, porra?!

Ela começou a girar a cabeça freneticamente, escaneando cada rosto, cada vitrine, como se procurasse um fantasma que tivesse atravessado as paredes.

Ao seu lado, Gabi coçava a cabeça, igualmente confusa.

GABI (coçando cabeça, confusa):

— Que caralho foi isso? Teleporte? Sumiu do mapa!

VANESSA (incrédula):

— Impossível! Em três segundos? Não some assim!

Foi então que Ivan Alencar, o chefe pragmático, assumiu o controle.

O momento de confusão passou; agora era hora de ação executiva.

IVAN (ordem rápida):

— Rápido! Split team! Vamos atrás dele! Deadline correndo!

O que se seguiu foi uma cena digna de comédia pastelão.

Os três saíram em disparada pela praça de alimentação, derrubando cadeiras e desviando de carrinhos de bebê.

 

Vanessa corria mancando levemente, o corpo cobrando o preço do estresse físico e reflexo do acidente da van; Ivan apontava direções aleatórias como um general perdido; e Gabi, fiel à sua natureza, corria atrás deles ainda mastigando o último pedaço de comida que salvara do prato, com as bochechas cheias e o fôlego curto.

GABI (mastigando, ofegante):

— Espera eu, seus doido! Tô com rango na boca!

A grande caçada no shopping havia começado.

E prometia ser caótica.

 

 

Página 6: A Escultura de Carne

Enquanto a perseguição desajeitada ocorria sob as luzes artificiais do shopping, nas profundezas da Sub-seção C3, a iluminação era clínica e impiedosa.

O destino do país estava prestes a ser revelado sob um lençol branco.

Mauro Magnus, movendo-se com a reverência de um sacerdote diante de um altar profano, aproximou-se da primeira maca.

Ele pousou a mão sobre o tecido com uma intimidade perturbadora, sentindo o calor que emanava da forma deitada ali.

Seus olhos brilharam ao encontrar os de seu guarda-costas.

MAURO MAGNUS (baixo, quase carinhoso):

— Fernando, meu querido...

— Faz as honras.

O gigante obedeceu sem hesitar. Com um movimento suave e contínuo, Fernando puxou o lençol, despindo o segredo que a Magnus Farma escondia do mundo.

O som do tecido deslizando foi a única coisa ouvida antes do grito abafado do Deputado Edu.

Ali, exposto sob a luz fria, estava o impossível.

Não era um homem, nem um animal, mas uma fusão grotesca e majestosa de ambos.

A criatura possuía uma pele avermelhada, vibrante como carne viva, cobrindo uma musculatura hipertrofiada e desenhada com precisão genética.

O peitoral e o abdômen eram blindados por placas naturais de couro de jacaré, como uma armadura biológica.

Suas mãos terminavam em garras negras e afiadas, prontas para rasgar aço.

Mas o verdadeiro horror estava na face: orelhas pontiagudas de morcego, olhos vermelhos como fogo sem um único traço de humanidade e uma expressão felina, predatória.

Vestindo apenas restos de uma calça jeans rasgada, o Protótipo Híbrido era a encarnação da força bruta uma quimera das trevas.

O Deputado Edu recuou, tropeçando nos próprios pés. A mão foi à boca, tentando conter a bile que subia.

Seus olhos estavam arregalados, o rosto transformado numa máscara de puro horror.

A política, as propinas, o Congresso... tudo aquilo parecia insignificante diante daquela abominação.

Magnus, no entanto, sequer olhou para o político aterrorizado.

Ele mantinha os olhos fixos em sua criação, inebriado pelo próprio poder.

Quando falou, sua voz assumiu um tom histórico e maligno, ecoando pelas paredes metálicas.

MAURO MAGNUS (tom de aula de História, venenoso):

— Tolos...

— Faraós, Césares... até o pintorzinho austríaco de bigodinho e fixação em raça pura...

(sorriso de escárnio)

— Todo mundo quis esculpir a humanidade à própria imagem.

A câmera lenta da narrativa focou no rosto de Magnus.

 

Ele ergueu o queixo.

Um sorriso de puro escárnio curvou seus lábios, o desprezo de um deus moderno pelos "primitivos" do passado.

Deu o veredito.

MAURO MAGNUS:

— E todos falharam.

— Sabe por quê, Edu? Porque trabalhavam com ferramenta errada: ideologia, medo, arma, aço.

— Tentavam mexer na cabeça...

Ele apontou pra criatura. Carne viva sob a luz.

MAURO MAGNUS:

— ...quando o segredo sempre esteve na carne.

 

Página 7: O Código-Fonte da Vida

O silêncio no laboratório era quebrado apenas pela respiração ofegante do Deputado Edu.

Magnus deslizou a mão pela carapaça rígida do peitoral da criatura inerte.

O toque era quase carinhoso, o gesto de um artista admirando sua escultura.

Sua expressão transcendia a arrogância; era uma confiança messiânica, absoluta.

— Eu, meu caro Deputado...

— disse ele, encarando os olhos sem vida da besta.

— Eu não perco tempo com discursos políticos ou campos de concentração. Eu trabalho com o barro original. Com o código-fonte da vida.

Edu, incapaz de desviar o olhar daquela monstruosidade avermelhada, sentiu as pernas falharem.

O suor escorria frio por seu colarinho, ensopando a camisa cara.

— S-senhor Magnus...

— gaguejou ele, a voz reduzida a um fio.

— O que... o que é isso, pelo amor de Deus?

Magnus virou-se lentamente, os olhos brilhando com a loucura visionária.

Ele não ofereceu uma explicação científica, nem um nome técnico. Ele ofereceu uma profecia.

— Isso, meu amigo... — ele abriu os braços, abrangendo a sala e os horrores contidos nela.

— ...é apenas um protótipo. O rascunho de uma visão maior. É o futuro batendo à nossa porta.

Então, num movimento que selou o destino do político, Magnus avançou e passou o braço pesado pelos ombros de Edu.

Puxou o homem menor e trêmulo para um abraço forçado, íntimo e aterrorizante, prendendo-o ali, ao lado do monstro.

O empresário começou a rir. Uma gargalhada alta, ressonante, que ecoou pela câmara fria, celebrando o poder sem limites.

— AHAHAHAHAHA!

Edu, preso no abraço de ferro, olhou para o monstro, olhou para Magnus e percebeu que não havia saída.

Forçado pela situação, quebrado pelo medo, ele tentou acompanhar a alegria macabra de seu novo dono.

— ha... ha... ha...

— saiu de sua boca, uma risada pequena, seca e sem graça.

O som de um homem que acabara de perceber que o inferno era real, e ele tinha acabado de ganhar um cargo vitalício na administração.

 

 

Página 8: O Evangelho Segundo Magnus

Na fria sub-seção C3, o riso forçado do Deputado Edu morreu rapidamente, sufocado pelo peso da presença inerte na maca.

Seus olhos não conseguiam se desviar da carapaça vermelha e das garras do monstro.

Magnus alisou a placa dura do peito da criatura.

Toque de escultor admirando mármore quente a expressão dele já tinha passado da arrogância corporativa e tinha virado messias genético.

MAURO MAGNUS (olhando pro monstro):

— Eu, meu caro Deputado...

— Eu não gasto saliva com palanque ou discurso vazio.

- Não perco tempo com campo de concentração.

— Eu mexo direto no barro. No código-fonte.

Edu não conseguia piscar a monstruosidade vermelha a sua frente deixava sua Perna bamba e sua Camisa italiana colada de suor frio.

DEPUTADO EDU (fio de voz, mineiro destruído):

— S-senhor Magnus...

— Que trem é esse, sô? Pelo amor de Deus... o que cê fez?

Magnus caminhou lentamente ao redor da maca, as mãos nas costas, contemplando a morte com a serenidade de quem vê apenas dados científicos.

Seu rosto exibia a calma febril de um profeta que acaba de descer da montanha com as tábuas da lei.

— Isso, meu amigo... é só o rascunho.

— Protótipo.

- O futuro tá esmurrando a porta, Edu.

- E a gente vai abrir.

Ele parou, olhou nos olhos do deputado e, pela primeira vez, pronunciou o nome que mudaria o destino da humanidade.

— Projeto Gênesis.

Um close no rosto de Edu capturou a confusão absoluta.

A palavra bíblica, carregada de significado divino, parecia profana naquele laboratório de horrores.

MAURO MAGNUS(Bradou com um Messias)

— Projeto... Gênesis?

Sem entender que ao pronunciar aquele nome, ele estava se tornando apóstolo de uma nova e terrível religião.

Num movimento rápido Magnus, laçou o pescoço do deputado num abraço de urso, prendeu o político ali, colado nele e colado no monstro.

E começou a rir.

Gargalhada de vilão clássico, daquelas que batem na parede de metal e voltam mais alto. Poder puro.

MAURO MAGNUS:

— AHAHAHAHAHA!

Edu, travado no abraço, olhou pro bicho.

Olhou pro dono.

Viu que a porta de saída tinha sumido faz tempo.

Quebrado, tentou fingir que tava na piada.

DEPUTADO EDU (riso seco, morto):

— ha... ha... ha...

NARRADOR:

"O som de quem descobriu que o inferno existe. E que acabou de ser nomeado assessor executivo do Diabo."

Página 9: O Pitch do Apocalipse

NARRADOR:

"Magnus não tava vendendo remédio. Nem vacina. A luz fria batia no olho dele, e o que brilhava ali era negócio de guerra."

A iluminação clínica refletia nos olhos febris de Magnus enquanto ele desvendava o verdadeiro escopo de sua ambição.

Não era sobre cura.Nunca foi.

MAURO MAGNUS (sussurro de vendedor do caos):

— Armas perfeitas, Deputado.

— Esquece tanque. Esquece drone.

— Imagina híbrido humano... modificado no kernel.

— DNA da nossa fauna. Onça, cobra, aranha... Predador puro fundido com inteligência. Tudo na minha mão.

Edu olhou novamente para o monstro na maca.

O medo tava lá, mas a ganância começou a empurrar ele pro lado.

Onde tinha o monstro, ele começou a ver cifrão.

O medo primitivo foi lentamente substituído pela ganância política.

A engrenagem da corrupção girou em sua mente, calculando o valor de mercado daquela aberração.

DEPUTADO EDU (maravilhado, voz de quem achou ouro):

— Um exército...

— ...de super-humano, sô?

 

Magnus percebeu a mudança.

Ele tinha fisgado o peixe.

Animado, começou a descrever o catálogo de horrores com um prazer sádico.

MAURO MAGNUS (entusiasta sádico):

— Exato!

— Homem com força pra rasgar blindado no meio igual papelão!

— Mulher fatal com veneno no beijo e garras de afiadas!

— Poder absoluto, Edu. Embalagem humana, recheio de pesadelo.

Sombras mentais. Vultos passando rápido, garras riscando metal, gritos abafados.

Enquanto Magnus falava, a mente de Edu (e a do ouvinte) foi invadida por uma visão sombria e estilizada. Silhuetas de pesadelo ganharam vida na imaginação: vultos ágeis saltando entre prédios, garras brilhando no escuro, inimigos do Estado sendo dizimados em silêncio.

NARRADOR:

"Na cabeça do Edu, o filme rodou. Vulto pulando prédio. Inimigo político virando carne moída na calada da noite.

Não era mais ciência.

Era guerra.

E o Deputado Edu acabara de receber o convite para ser um dos generais."

 

 

Página 10: O Sonho e a Falha

A semente da megalomania floresceu rapidamente na mente limitada mais fértil do Deputado Edu.

Ele olhava para o vazio, visualizando paradas militares com soldados híbridos e o mundo se curvando.

DEPUTADO EDU (sussurro de convertido):

— Brilhante, sô...

— Com isso na mão, a gente podia...

Magnus completou o pensamento, alimentando o ego nacionalista do político.

MAURO MAGNUS (alimentando a fera):

— Sim.

— O Brasil para de ser anão diplomático.

- Vira gigante.

- Centro do mundo.

— Potência biológica.

- Ninguém peita a gente.

Edu estava eufórico seu medo inicial parecia uma memória distante agora gesticulava, animado, um recém-convertido à igreja de Magnus.

DEPUTADO EDU (eufórico, gesticulando):

— Agora eu tô vendo, Magnus!

— É grandioso demais! É patriótico! É...É...

MAURO MAGNUS (corte seco, gélido):

— ...incompleto.

 

O sorriso do deputado vacilou.

O rosto de Magnus endureceu, o sonho febril dando lugar à dura realidade técnica do laboratório.

MAURO MAGNUS:

— Não tá pronto, Deputado.

— Temos força.

- Mas não temos perfeição.

O olhar de Magnus desviou-se do político e mergulhou nas sombras do laboratório.

De lá, emergiram duas figuras silenciosas.

Das trevas saíram eles: Fernando (montanha) e Adriele (felina).

Eles se aproximaram lentamente, obedientes, mas seus movimentos carregavam algo rígido, artificial.

Eram poderosos, sim. Mas aos olhos perfeccionistas de seu criador, eram lembretes vivos das falhas do processo.

Rascunhos funcionais, mas ainda rascunhos.

 

 

Página 11: A Melhor Atuação da Carreira

A busca pelo shopping foi um exercício de caos e frustração.

NARRADOR:

"Caçada no shopping: fiasco total. Ivan mostrou foto pra lojista, recebeu vácuo. Gabi na piscina de bolinhas, Vanessa águia cega no segundo andar."

Ivan parava lojistas, mostrando a foto de JC no celular como um pai desesperado, apenas para receber ombros levantados em resposta.

Gabi invadia a área kids, pulando piscinas de bolinhas e desviando de crianças gritando, enquanto Vanessa varria o segundo andar com olhos de águia, sem sucesso.

uma hora depois, o trio se reagrupou num corredor lateral, suados e ofegantes.

IVAN (Faria Limer ofegante, mão no joelho):

— Meu Deus... rodamos o mall inteiro... nada.

— O cara evaporou, meu. 

- Literalmente virou fumaça.

GABI (Baixada viajando, limpando suor):

— Aí, papo reto: será que é o soro?

— Tipo... teleporte, tá ligado? O bicho faz mágica agora? Vai ver virou o Noturno dos X-Men.

VANESSA (Carioca sem paciência, revirando olho):

— Para de viajar na maionese, Gabi.

- Menos, bem menos.

— Vamos...

De repente temos um inside, uma lâmpada se acendeu atrás de seus olhos negros de Vanessa.

 

O desânimo sumiu, substituído pela astúcia da repórter investigativa.

— Já sei. Rápido! Cola em mim!

Eles marcharam em direção a um segurança entediado encostado numa pilastra.

Antes de chegar, Vanessa mudou a chave seus ombros caíram uma cara de angústia de novela das nove

VANESSA (atriz dramática, voz chorosa):

— Moço... pelo amor de Deus... me ajuda!

— A gente perdeu um amigo aqui dentro! Por favor

O segurança, que tava escorado na pilastra pensando no churrasco de domingo, desencostou devagar. Olhou pra confusão com aquela calma de quem resolve B.O. todo dia.

Gabi captou no ar. Abraçou a amiga como suporte de vida como se ela estivesse prestes a desmaiar.

GABI (Baixada histérica):

— É o nosso parceiro, moço! Ele sumiu do nada! A gente tá desesperada aqui!

Vanessa aumentou a aposta, entregando a performance de sua vida com lágrimas reais

(provavelmente de frustração acumulada).

— É urgente, moço! A mãe dele tá enfartando no hospital! Tá na UTI! E ele não atende essa merda de telefone!

O segurança endireitou a postura, a empatia lutando contra o protocolo.

SEGURANÇA (Carioca gente fina, tranquilo):

— Opa, calma aí, patroa. Sem estresse.

— Perdido como? Criança ou marmanjo?

— Respira, amizade. Pra que lado o meliante foi?

 

GABI (gritando):

— A gente já rodou essa porra toda e nada! Ele sumiu!

Xeque-mate. Ivan entrou com a voz de CEO.

Ele deu um passo à frente, usando sua voz grave de chefe e a autoridade natural de quem comanda uma redação.

IVAN (Autoridade Paulista Sênior):

— Meu amigo, veja bem.

- O senhor não tá entendendo a gravidade.

— Pode levar a gente na sala de monitoramento? Agora?

— É caso de vida ou morte, companheiro.

- Cada minuto conta.

A menção à morte quebrou qualquer resistência burocrática.

O segurança coçou a cabeça, olhou pro Ivan engravatado, pra ruiva chorando e pra baixinha gritando e convencido de que salvaria o dia, acionou o rádio.

SEGURANÇA (relaxado, mas prestativo):

— Ih, rapaz... se o bicho tá pegando assim, demorou.

— Vida ou morte é sinistro. Vem comigo então, chefia.

— Bora resolver essa parada nas câmeras. Segue o fluxo.

NARRADOR

"Jeitinho carioca + desespero paulista = acesso liberado."

Página 12: Big Brother Shopping

NARRADOR:

"Santuário escuro. Telas azuis. Cheiro de café velho. O Chefe da Segurança — homem vivido, crachá antigo no peito — tava na paz do café quando o bonde invadiu."

Chefe da SEGURANÇA

— Que PORRA é ESSA?!

— Que algazarra é essa na minha sala, 01?!

SEGURANÇA (Carioca gente fina):

— Chefe, QSL. É caso de vida ou morte.

Aproveitando a deixa Vanessa com a maquiagem borrada e tensa completou a frase justificando a invasão.

VANESSA (Carioca tensa):

— Senhor, desculpa a invasão! Perdemos nosso parceiro!

— A mãe dele tá na UTI! É urgente!

Gabi aproveitando a oportunidade e seus dotes, se aproximo do chefe de um jeito bem ousada pressionando os braços entre os seios bem na linha de visão do Chefe da segurança e pediu com ar de safadinha.

GABI (Baixada safadinha, voz manhosa):

— Por favor, chefinho... ajuda a noix.

(Pisca)

CHEFE SEGURANÇA (hipnotizado pelo decote, voz mole):

— Claro... positivo. Copiado, senhora.

— Vamos proceder com a busca.

 

SEGURANÇA (rindo baixo):

(Esse puto não vale nada... velho safado.)

Chefe focou no console.

Modo profissional "on" e começou o trabalho de busca ao Fantasma.

— Informe o último visual do indivíduo.

VANESSA (memória fotográfica):

— Praça de alimentação. 13:20h.

O Chefe deu uma focada na praça de alimentação buscando a informação.

O homem puxou as imagens.

O tempo retrocedeu na tela.

A multidão acelerada congelou e voltou a se mover.

Câmera central - Praça de alimentação – 13:20h.

CHEFE:

— Visual da área confirmado.

- Identifiquem o alvo.

Ivan, mostra a foto do Rapz em seu celular para os seguranças para que eles ajudem a identificar o alvo.

IVAN (mostrando celular, sério):

— Friends, esse é o target. Olhem bem.

Todos olham as câmeras que estão focadas na PA ate que:

Gabi, com seus olhos treinados para encontrar promoções e crushs em multidões, apontou o dedo para o canto superior direito.

GABI (olho de águia pra crush):

— ALI! É ELE! Camisa amarela com detalhe vermelho!

 

SEGURANÇA:

— Chefe, Monitor 24C. Setor 2.

CHEFE:

— Positivo. Contato visual estabelecido.

— Rastreando deslocamento...

No telão, a figura pixelada de JC caminhava calmamente, desviando de mesas, até virar num corredor lateral.

Uma placa indicava "Sanitários".

O segurança adiantou a fita e viu o Trio passar direto seguindo pelo corredor central.

Alguns minutos depois JC sai do banheiro e vai sentido oposto a corredor deles.

VANESSA (bufando, incrédula):

— Tá de sacanagem...

— O maluco entrou no banheiro e a gente passou reto? Fala sério, mano!

Ivan, aliviado por não ser uma tragédia real, não conseguiu segurar e soltou uma risada nasalada.

— O cara meteu o pé pelo banheiro... ninja do mictório.

— Chega a ser cômico, meu.

Gabi o acompanhou, cobrindo a boca.

— O cara sabia que a gente tava procurando ele e meteu o pé pelo banheiro...

Seguranças trocaram olhares, segurando o riso.

SEGURANÇA (deboche carioca):

— Pois é... Ninguém se ligou de checar o QTH do banheiro, né?

 

 

Vanessa girou nos calcanhares, fuzilando o grupo com um olhar, talvez o mais mortal de sua carreira.

VANESSA (olhar assassino):

— Tão rindo de quê, seus palhaços?!

— Isso é sério, porra! A gente perdeu o lead de no...

Gabi sempre atenta estava varrendo cada de tela de cada monitor quando de repente avistou o alvo.

(gritando):

— GENTE! PARA TUDO!

— ACHEI! CÂMERA 4B!

Vanessa quase pulou sobre o console.

— Sério?! Joga na tela! Que câmera é essa?

O Chefe da Segurança digitou o código e a imagem expandiu para o telão central.

CHEFE:

— Setor Externo.

- Estacionamento.

Imagem expandiu.

Lá estava ele. JC, chave na mão, andando pro carro.

 

Página 13: A Visão Vertical

JC Andrade, caminhando despreocupadamente em direção à saída do estacionamento, girando a chave do carro no dedo.

VANESSA (coração na boca):

— Isso é gravado?! De quando?!

SEGURANÇA de bate pronto respondeu

— Agora, senhora. Live. Ao vivo.

Os três se entreolharam.

[PAUSA DRAMÁTICA]

O pânico e a adrenalina se misturaram num coquetel explosivo, Vanessa e Ivan disparam para o local enquanto Gabi para vira olho para Chefe da Segurança entregou um cartão e mandou

GABI (piscadinha, voz manhosa):

— Me liga, Gatão...

— Valeu, meninos! Beijinhos!

Ela sai rebolando dá uma piscadinha para eles.

Seguranças no vácuo..confusos com a porta batendo atrás deles.

SEGURANÇA (rindo):

— Eita porra... que bonde maluco.

— A velha deve tá nas últimas mesmo pra essa correria.

Chefe olhou o cartão: "Gabrielle - Repórter Rede News".

CHEFE SEGURANÇA (riso sarcástico):

— É... sei... "Mãe doente".

— Kkkkkkk... Conta outra.

 

A caçada tinha saído do digital e voltado para o asfalto.

A passarela do estacionamento tremia sob os passos apressados de Ivan, Vanessa e Gabi.

O som da respiração ofegante se misturava ao eco distante de motores ligando.

Eles corriam contra o tempo e contra a gravidade.

Ao chegarem na mureta de proteção, os três se debruçaram, olhando para o abismo de concreto e carros estacionados.

Seus olhos varreram os andares inferiores num pânico visual.

IVAN (apontando pro abismo):

— EI! LOOK! OLHEM!

— Setor C4! Lá embaixo! É ele!

A visão era clara, mesmo à distância.

A silhueta inconfundível de JC estava ao lado de seu HB20. Ele abriu a porta do motorista e deslizou para dentro.

As luzes de freio se acenderam, vermelhas como um sinal de alerta.

(Narrador: O motor ganhou vida. A chance estava prestes a acelerar para longe deles.)

Um close no rosto de Vanessa mostrou o desespero puro.

Ela não podia perder aquele carro.

Não depois de tudo.

VANESSA (berrando, ignorando dor na perna):

— VAMOS! ELE VAI SAIR!

— CORRAM, PORRA!

 

Página 14: O Crime do Prato Feito

O trio estava pronto para a corrida de suas vidas.

Músculos tensos, foco no objetivo, adrenalina no máximo.

Mas antes que pudessem dar o primeiro passo em direção à escada, uma muralha humana se formou na frente deles.

DONO RESTAURANTE (esganiçado, vermelho):

— ALI! ECCOLO! SÃO ELES!

— PEGA OS VAGABOND!

Eles frearam bruscamente.

Diante deles, bloqueando a passagem, estava o dono do restaurante onde haviam almoçado (ou tentado almoçar).

Ele era um homem baixo típico itálo-paulistano do brás, vermelho de raiva, ladeado por dois seguranças do shopping que pareciam armários de terno preto.

DONO:

— MA CHE CAZZO! SAÍRAM SEM PAGAR A CONTA!

— Comeram a pasta, beberam o vino e via?! Correram?!

— CALOTEIROS! LADRI!

O caos se instalou instantaneamente.

Ivan tentou argumentar, Gabi tentou se esconder atrás de Vanessa, e os seguranças fecharam o cerco.

Mas a verdadeira tragédia aconteceu no plano de fundo.

Enquanto o trio era encurralado pela justiça gastronômica, um som suave de pneus no asfalto liso atraiu o olhar de Vanessa.

Passando tranquilamente atrás dos seguranças, a poucos metros de distância, o HB20 deslizou em direção à rampa de saída.

JC estava lá dentro, alheio ao drama, ouvindo música, indo embora.

Livre. Inalcançável.

Um close no rosto de Vanessa capturou o momento exato em que a alma dela saiu do corpo.

A adrenalina virou cinzas.

A esperança virou pó.

Ela assistiu às lanternas traseiras do carro sumirem na curva da rampa, levando consigo a única chance de salvar a Rede News.

VANESSA (voz morta, sussurro):

— Só pode ser sacanagem...

Ignorando os gritos do dono do restaurante e a vergonha de Ivan puxando a carteira para pagar, Vanessa levantou o rosto para o teto de concreto sujo do estacionamento.

Não era uma prece.

Era uma constatação.

VANESSA:

— O universo tá de kaô comigo...

— E o roteirista dessa merda é um sádico do caralho.

NARRADOR:

" Perderam o lead por causa de um prato feito não pago e um italiano puto. O destino ri por último."

Página 15: Pensamentos na Estrada

NARRADOR:

" Bolha do HB20. Ar condicionado no talo, calor do Rio de fora. JC dirigindo no automático, zero noção do caos que deixou pra trás."

Seus olhos estavam na estrada, mas seu foco estava no passado recente.

JC (pensamento carioca arrependido):

(Será que eu colo na Herika?)

(Encontro foi uó... Fui moleque. Pedir desculpa? Flores? Putz, clichêzão. Talvez uma parada mais original...)

Enquanto JC debatia suas estratégias românticas, a câmera se afastou.

Vimos a traseira do carro branco saindo da rampa, pegando a avenida principal e se misturando ao fluxo infinito de veículos da cidade.

Ele era apenas mais um ponto no trânsito.

Em primeiro plano, desfocado e trágico, a cena no estacionamento continuava.

Ivan, vermelho de vergonha, tentava passar o cartão de crédito na maquininha do dono do restaurante, rezando para o banco aprovar.

IVAN: (Please, aprova...)

Gabi gesticulava, tentando explicar que "mãe no hospital" justificava um calote temporário.

Gabi gesticulando: ("Mãe na UTI, tio! Juro!")

E Vanessa estava parada, estática, olhando para o vazio onde seu alvo estivera segundos antes.

A conexão foi perdida.

O sinal caiu.

A caçada, por ora, havia fracassado espetacularmente.

Restava apenas o relógio correndo em direção às 20h.

VANESSA (conformada, sussurro):

— Só me resta a Resenha mais tarde...

— Espero que essa fonte não me dê bolo.

[BEEP]

O smarphone de Gabi apita nesse exato momento era Valtinho mandando a boa: Localização + Lista VIP.

GABI (animada, gritando):

— RUIVA! OLHA ISSO AQUI!

Vanessa olhou.

Chama acendeu de novo.

Breve, mas acendeu.

NARRADOR:

"Quando uma porta fecha (ou um carro foge), um WhatsApp abre a janela. A noite prometia."

 

 

Página 16: Gado Marcado

Na penumbra da Sub-seção C3, o Deputado Edu analisava as duas figuras paradas à sua frente.

Para um olho destreinado, Fernando (montanha) e Adriele (felina). Pareciam gente

A monstruosidade não era óbvia como na criatura da maca.

DEPUTADO EDU (confuso, coçando cabeça):

— Uai, Magnus... desculpa a ignorância, sô.

— Pra mim, parece normal. Gente como a gente, só que... criada em whey protein.

Magnus soltou uma risada curta e amarga, o som de um gênio frustrado pela limitação de sua obra.

— Normais?

— Não, Edu. Normalidade é luxo que eles não têm mais.

— São os EXUS. Fracassos do Estágio 1.

DEPUTADO EDU:

— Exus?

Magnus começou a circundar seus "filhos", descrevendo-os como quem apresenta carros usados com defeito de fábrica.

apontando Fernando):

— Olha o Fernando.

— Força brutal.

- Pele blindada.

- Tanque biológico.

— Mas o olho humano queimou.

- Sua visão é um sensor de calor, como a de víboras e morcegos. Ele vive num mundo de sombras térmicas.

Magnus então se voltou para Adriele, que permanecia em posição de sentido, mas com uma tensão vibrante nos músculos.

(apontando Adriele):

— E ela... Forte, ágil

— Ágil. Faro de perdigueiro. Caçadora perfeita, capaz de rastrear uma gota de sangue a quilômetros.

Adriele contraiu a mandíbula, e um som baixo, gutural, escapou de sua garganta.

Um ronronar involuntário e perigoso.

— ...Mas ela carrega a instabilidade psicológica de um felino acuado. Uma sede de sangue que precisa ser constantemente dopada e controlada.

Edu olhava de um para o outro, o horror se misturando à confusão em sua lógica de homem do campo.

DEPUTADO EDU:

— Mas... qual o defeito da peça, uai?

— Parece arma boa. Onde que o trem desanda?

Magnus parou. Seu rosto perdeu a teatralidade e assumiu a frieza de um médico dando um diagnóstico terminal.

— Validade, Deputado.

— Instabilidade crônica. O corpo rejeita a mudança.

— Precisam de doses constantes de soro EXUS. Senão... desmancham em agonia.

— Não vivem. Sobrevivem.

 

Um close no rosto do Deputado Edu mostrou o momento exato em que a ficha caiu.

O choque da revelação foi total.

Ele olhou para Fernando e Adriele não mais como deuses ou monstros, mas como vítimas.

(Pensamento Edu - Voz interna assustada):

(Meu Deus do céu...)

(Não são super-humano... são preso. Gado marcado. Depende do dono pra não morrer.)

DEPUTADO EDU (sussurro aterrorizado):

— Soro... EXUS...

NARRADOR:

"Poder real não é força. É controle da dose. Magnus não tinha soldados. Tinha viciados."

 

Página 17: Predadores e Pacientes

Das sombras do laboratório, o Dr. Marcos emergiu como um fantasma de jaleco.

Seu tom era professoral, cirúrgico, discutindo abominações como se fossem dados em uma planilha de Excel.

MARCOS (Carioca intelectual, tom clínico):

— O soro EXUS, Deputado...

— ...nós o sintetizamos a partir do material genético dos predadores mais perigosos da nossa fauna.

- Ex. Onças, jacarés, jararacas, aranhas armadeiras, piranhas e muitos outros.

— Aplicamos esse coquetel instável em cobaias humanas previamente selecionadas... ou descartadas pela sociedade.

Magnus, com uma expressão de decepção calculada, apontou para seus dois "Hibridos" parados ali.

(decepção calculada):

— Primeiros resultados? Catástrofe.

— Corpo explodindo.

- Mente virando mingau.

— Só esses dois aguentaram o tranco.

Dr. Marcos ajeitou os óculos, continuando a explicação técnica.

— Estudo revelou: EXUS é agressivo demais pra genoma padrão.

- Ele só é assimilado, paradoxalmente, por um DNA que já possuía algum tipo de falha ou anomalia prévia.

- Uma "abertura" biológica.

 

Ele gesticulou para.

— Adriele: doença sanguínea rara. Compatível com a toxina.

E depois para o gigante.

— Fernando: cegueira degenerativa congênita. O soro reescreveu o sentido que faltava.

O Deputado Edu, tentando acompanhar a lógica distorcida, apontou para a maca onde o monstro avermelhado jazia morto.

DEPUTADO EDU (apontando pra maca do monstro):

— Certo... os defeituoso vira arma. Entendi.

— Mas e esse bicho feio aí deitado? Num parece com o grandão nem com a moça.

Dr. Marcos sorriu, um sorriso fino e sem humor.

— Segunda fase.

- Tentativa de estabilização.

— Precisávamos de um buffer, um amortecedor pra fúria.

— Encontramos nas preguiças. Mamífero mais calmo e resiliente do bioma.

Magnus interrompeu, soltando uma risada de puro deboche.

Magnus riu. Deboche puro.

— Fera assassina controlada pelo bicho mais lerdo do planeta.

— Ironia poética, né Edu? Tentar domar o caos com o tédio.

 

 

Página 18: O Catalisador Falho

O Dr. Marcos não se abalou com o sarcasmo do chefe.

Sua mente estava focada na narrativa científica, na justificativa de seus métodos brutais.

MARCOS (frio, técnico):

— Tentamos abordagem direta.

— Injetamos EXUS — carga viral de predador — direto na preguiça.

— Meta: forçar o organismo a criar anticorpo. Um estabilizador biológico.

— Buscávamos um catalisador. A chave da evolução.

Magnus bufou, caminhando até a maca e dando um tapa desdenhoso na carapaça morta da criatura.

MAURO MAGNUS (amargo):

— E esse aqui, Edu... foi o resultado patético.

— Nossa "ideia genial".

Ele olhou para a besta vermelha e deformada, uma massa de músculos e fúria congelada na morte.

— Ao invés de um super-soldado, saiu a aberração.

— Feroz. Instável.

— E o pior: incontrolável.

- Bicho burro que só sabe matar.

- Sem coleira.

 

O Deputado Edu, visualizando a criatura viva e solta naquele laboratório, sentiu um calafrio percorrer sua espinha.

— Meu Deus do céu...

— Vocês... tiveram que abater o bicho?

— Como é que se mata um trem desse, sô?

 

 

Página 19: O Outro Nível

Magnus sorriu, um sorriso diabólico que fez a temperatura da sala cair mais alguns graus.

— Abater?

(Riso curto)

— Não, Edu. A gente não levantou um dedo.

— A natureza cobrou a conta.

— Não aguentou a transformação. Colapsou. Morreu de excesso de poder. Falha estrutural.

Edu olhou para a carcaça inerte, tentando processar a ideia de que aquilo morreu por ser forte demais.

DEPUTADO EDU (apontando):

— E por que tá aqui ainda?

— Pra que guardar lixo, uai?

Dr. Marcos adiantou-se, respondendo com o mais puro cinismo científico, a voz suave de quem justifica atrocidades com lógica.

(voz suave, lógica cruel):

— Estudos, Deputado.

— Autópsia.

- Engenharia reversa do erro.

— A ciência progride pisando em cadáver. Cada corpo aqui é um degrau pra perfeição.

O Deputado Edu ficou em silêncio por um longo momento.

Ele olhou do monstro morto para os dois homens vivos à sua frente.

O medo infantil havia desaparecido de seu rosto, substituído por uma aceitação cética, sombria e pragmática.

Ele finalmente havia compreendido a escala do tabuleiro em que tinha acabado de entrar.

Não era mais sobre emendas parlamentares ou votos. Era sobre a reescrita da realidade.

DEPUTADO EDU (sussurro sério, mineiro raiz):

— Uai, sô...

— Vou te falar um negócio.

— Já vi muito trem esquisito na vida... muita sujeira em Brasília, muita facada nas costas...

(Balança a cabeça, respeito relutante)

— Mas vocês...

— Vocês tão num outro nível de jogo.

NARRADOR:

"O político corrupto reconheceu: ali não era amadorismo. Era o abismo profissional."

Página 20: A Verdadeira Face do Ódio

A tensão no laboratório subterrâneo mudou de sabor.

Magnus, percebendo que já havia chocado o suficiente o seu convidado com monstros, decidiu mudar a estratégia para algo mais... pessoal.

Um brilho divertido e perigoso iluminou seus olhos enquanto ele guiava o político para fora da sala das macas.

MAURO MAGNUS (brilho perigoso, leve):

— Vem cá, Deputado.

— Tenho uma coisa que talvez te interesse... você gosta de BBB?

Edu franziu a testa, o chapéu de fazendeiro amassado nas mãos.

(confuso):

— BBB? Uai... Reality show?

— Que que isso tem a ver com...

Sem responder, Magnus o conduziu de volta ao laboratório principal do Dr. Marcos.

O conduziu diante do monitor central, o coração tecnológico da instalação.

— Meu caro, gostaria de lhe mostrar a nossa atração especial.

- A "casa de vidro", por assim dizer.

Com um gesto teatral, Magnus acionou o comando.

A tela ganhou vida, exibindo a transmissão ao vivo da câmera de segurança da Contenção 244.

A imagem era nítida e fria.

No centro da cela de vidro, Herika Rodrigues estava em pé, vestindo seu jaleco, aguardando seu destino com uma dignidade silenciosa.

A reação foi instantânea e violenta.

Um close extremo no rosto do Deputado Edu revelou a transformação mais grotesca daquela noite.

A máscara do político fanfarrão, do mineiro simpático e até do homem assustado caiu completamente.

Em seu lugar, surgiu a face crua do preconceito.

Seus olhos se estreitaram em fendas de puro ódio.

Sua boca se contorceu num esgar de nojo.

A voz, antes trêmula, agora era um rosnado baixo, virulento e cheio de veneno racial e ideológico.

DEPUTADO EDU (rosnado virulento, veneno puro):

— O que essa negra ativista vagabunda tá fazendo aqui?

NARRADOR:

" Não precisava de monstro genético pra ver aberração. O monstro social tava ali, de terno e chapéu, cuspindo bile."

Página 21: O Botão do Ódio

O eco do insulto racista de Edu ficou suspenso no ar estéril do laboratório.

Dr. Marcos piscou.

Olho arregalado atrás do óculos. O cientista que brincava de Deus... chocado.

Acostumado com monstro genético, mas aquilo? Aquela sujeira crua, vulgar? Nem microscópio filtrava.

Pela primeira vez na noite, o cientista imperturbável parecia genuinamente surpreso.

Mas Mauro Magnus não estava surpreso.

Pelo contrário.

Um close final em seu rosto revelou a expressão de um mestre de marionetes que acabara de executar o movimento perfeito.

Ele observava a raiva contorcer o rosto de Edu com o deleite de um sommelier provando um vinho raro.

Ele não apenas esperava aquela reação; ele a orquestrara.

Magnus sabia exatamente onde estava a ferida, onde estava o preconceito, onde estava o gatilho.

E ele o apertou com precisão cirúrgica.

— Heheheheheh... — a risada escapou de seus lábios, baixa, satisfeita e profundamente maligna.

NARRADOR:

"Monstro na jaula (Herika). Inimigo mortal fora (Edu). E Magnus com o controle remoto dos dois.

O jogo não tava só começando. Tava ficando divertido."

 

Página 22: A Joia da Coroa

O ódio do Deputado Edu ainda vibrava no ar, focado na imagem da mulher na tela.

DEPUTADO EDU (rosnando, mineiro bruto):

— Então cês tão guardando essa... essa praga aqui dentro?

— Dando comida e teto pra vagabunda que quer derrubar a gente?

O Dr. Marcos, recuperando sua postura clínica, respondeu com a frieza de quem separa emoção de utilidade.

MARCOS (clínico, leve deboche):

— Em partes, Deputado.

— Prisioneira? Sim. Mas também... arquiteta involuntária.

— Sem o cérebro dessa "praga", a gente tava tateando no escuro até agora.

Magnus aproveitou o momento.

Ele deslizou a mão no bolso do terno e retirou um pequeno objeto, levantando-o contra a luz fria do laboratório.

Uma cápsula brilhou. Não era vermelha como o EXUS, nem verde bruta. Era dourada, reluzente, perfeita.

Líquido puro. Ouro vivo.

MAURO MAGNUS (êxtase divino):

— E isso aqui, meu caro Edu...

(Segurando como se fosse o Santo Graal)

— ...é o Soro Gênesis.

— Aprimorado. Destilado. A versão final da divindade.

 

Edu, incrédulo, encarou o líquido dourado que prometia mudar o mundo.

Dr. Marcos, notando a confusão preconceituosa no rosto do político, acrescentou um detalhe com um toque de desdém intelectual:

MARCOS (desdém intelectual):

— Detalhe curioso, Deputado...

— O senhor sabia que a nossa "hóspede"... é Doutora em Biologia?

— Uma das mentes mais brilhantes que já pisou nesse chão.

(Sorriso fino)

— Irônico, não? A "vagabunda" que o senhor quer matar... é a mãe da nossa maior arma..

NARRADOR:

" O preconceito é cego, mas a ciência vê tudo. O ódio do Edu precisava do cérebro da Herika. A piada cósmica tava pronta."

 

 

Página 23: O Peão de Araque

A menção ao doutorado de Herika foi a gota d'água para o ego frágil de Edu.

DEPUTADO EDU (vermelho, berrando, dedo na tela):

— Escuta aqui, ô da gravata!

— Num me interessa se ela tem diploma ou se é o Papa! Doutora, ativista, o cacete a quatro!

— O que conta é que essa negrinha atrevida me fez perder uma fazenda! Uma fazenda de porteira fechada, sô!

— Ocês num tem noção do tamanho da ré no orçamento que eu tomei! Prejuízo de lascar o cano!

Magnus gargalhou. Riso de quem vê criança fazendo birra.

A resposta de Magnus foi uma gargalhada cortante, um som de puro desprezo que ricocheteou nas paredes de metal.

(veneno puro):

— HAHAHAHAHA! Fazenda?

(Chega perto, invade o espaço, olha de cima)

— Deixa de ser escroto, Edu.

— Aqui não tem palanque pra eleitor burro.

- Ninguém cai nesse teu teatrinho de "coronel sofredor".

Ele inclinou a cabeça, os olhos perfurando a alma do político.

— Todo mundo sabe que aquela tua "fazenda" era fachada pra tráfico de bicho, seu imbecil.

— Arara, mico, onça... Foi vendendo bicho pro exterior que tu encheu o bolso, seu peão de araque.

Edu abriu a boca para negar, mas fechou logo em seguida.

A verdade estava nua e crua na sala.

Ele baixou a cabeça, derrotado, encolhendo-se dentro do terno caro que de repente parecia grande demais.

Magnus, vendo a presa abatida, continuou com uma calma cruel, finalizando o serviço.

MAURO MAGNUS (calma cruel):

— E vamos falar o português claro...

— Se não fosse teu "negocinho" sujo me mandando cobaias, a gente nem se conhecia.

— Eu não tinha bancado tua campanha. E você...

 Magnus fez uma pausa dramática.

— ...você ainda tava lá no meio do mato, com a bota suja de esterco, catando bosta de boi com a mão.

— Então, baixa a bola "DEPUTADO".

 

Página 24: O Boiadeiro e a Mucama

A mente do Deputado Edu foi arrastada para uma memória que ele preferia esquecer.

Um flashback em tons de sépia e sujeira invadiu a narrativa.

NARRADOR

"Antes do terno e da imunidade, Eduardo Santana era só um boiadeiro com ambição de jagunço.

Sombra do cerrado.

Jaula lotada de jacaré, onça, ariranha. Negócio com os homens de preto do Magnus.

Ele não perguntava destino, só contava o dinheiro. Arquiteto involuntário do inferno."

De volta ao presente frio do laboratório, a humilhação imposta por Magnus apenas alimentou a fúria de Edu contra a mulher na tela.

DEPUTADO EDU (voz trêmula de raiva, brucutu):

— Pois então...

— Essa mucama aí me custou caro demais, sô!

— Invadiu minha terra, fez um salseiro com aqueles maconheiro de ativista...

Flashs mostrando a ascensão do Jagunço a Deputado Federal

Após muitos negócios com os Homens de Mauro magnus, O jagunço caçador EDU foi apresentado ao todo poderoso Mauro Magnus

 

O Famoso Aperto de Mão com o Diabo.

Banho de Loja:Edu jagunço sendo esfregado e vestido por equipe de marketing. Magnus olhando de longe. "Vereador Respeitável".O Esquema:Edu vereador assinando papel, facilitando carga de bicho pra Magnus Farma. Maracutaia no interior.O Salto:Discurso inflamado "pelo povo". Edu Deputado Estadual. Depois, Presidente da Câmara. Mala de dinheiro trocando de mão.O Auge:Brasília. Edu Deputado Federal. Poder. Fazenda nova cheia de bicho raro particular.

De volta ao presente

DEPUTADO EDU (berrando):

— Quase perdi a cadeira no Congresso por causa do escândalo!

— E os meus bichos... meus troféus!

— Essa piranha levou quase tudo! "Libertação animal", é o caralho! Foi roubo à mão armada, bandida!

NARRADOR:

" Pra ele, liberdade era roubo. E a mulher na tela não era cientista, nem gente. Era o prejuízo. E prejuízo, pra jagunço, se cobra com sangue."

 

 

 

 

 

 

Página 25: A Ironia Final

Magnus ouviu o lamento com um sorriso de canto, cruzando os braços.

Ele inclinou a cabeça, adotando um tom de voz infantilizado, de puro escárnio teatral.

MAURO MAGNUS (voz de bebê, deboche teatral):

— Ohhhh... tadinho dele!

— Coitadinho do deputadinho que perdeu os bichinhos ilegais...

— Que injustiça, né, Edu? O mundo é tão cruel com bandido honesto.

Magnus riu mais uma vez, encerrando o momento de zombaria.

Edu, percebendo que não ganharia aquela batalha de egos, engoliu o orgulho e mudou o foco para a curiosidade pragmática.

(resmungando, derrotado):

— Tá bom, tá bom... ocê venceu, sô.

— Mas que diabo ela faz aqui, afinal? Por que não despachou essa praga pro inferno logo de uma vez?

Magnus caminhou até o monitor, parando diante da imagem pixelada de Herika.

Ele tocou a tela com a ponta dos dedos, admirando sua prisioneira mais valiosa com um cinismo palpável.

 

MAURO MAGNUS (suave, cínico):

— Imagine só, meu caro...

— Uma militante radical... defensora dos bichinhos, "luz na passarela"... mas que, por baixo daquela gritaria toda, esconde uma bióloga com um cérebro de ouro.

— Eu não podia jogar isso no lixo.

— Então, botei ela pra trabalhar. Pela ciência. Contra tudo que ela acredita.

Nesse momento, Mauro Magnus fez algo que transcendeu a narrativa.

(A Quebra da Quarta Parede)

Magnus girou o corpo devagar. Ignorou o Edu. Ignorou o Marcos. Ignorou o laboratório.

Os olhos dele cravaram no "vazio". Na câmera. Em você.

Close no rosto dele.

Sorriso cúmplice.

Aquele sorriso de quem acabou de contar o segredo mais sujo do mundo só pra você.

MAURO MAGNUS (sussurrando pra plateia/leitor):

— Irônico, não é?

— Usar o amor dela... pra criar monstros.

Ele riu, e o som ecoou não só no laboratório, mas na mente de quem ouvia.

NARRADOR:

"A piada era cruel. E a gente tava rindo junto, ou com medo de ser o próximo."

Página 26: A Caridade de Fachada

O momento de metalinguagem passou.

Magnus piscou e voltou ao seu papel de CEO implacável, girando nos calcanhares.

MAURO MAGNUS (palma seca, profissional):

— Nosso "Big Brother" tá uma delícia, mas o show não para.

- Temos agenda.

O Deputado Edu, lembrando-se subitamente de que ainda era um funcionário público (pelo menos no papel), consultou o relógio de ouro.

DEPUTADO EDU (ajeitando o chapéu, mineiro apressado):

— Pois então! Vixe Maria, tamo atrasado demais da conta!

— Aquela inauguração lá na Cidade de Deus, sô.

— O tal do Instituto Tecnológico pra molecada da favela.

— Evento bão que só vendo! Bom pra mostrar serviço, beijar umas velha e garantir o voto do ano que vem!

— A imprensa toda vai tá lá em peso!

Magnus assentiu, a máscara de filantropo voltando ao lugar. Ele olhou para o cientista chefe.

MAURO MAGNUS:

— Doutor Marcos, o comando é seu.

— Olho nela. E não pare os testes.

- Quero resultados, não relatórios.

 

Fez um gesto seco pro gigante no canto.

MAURO MAGNUS:

— Fernando. Vamos. O circo nos aguarda.

O trio saiu.

O Monstro de terno, o Político de araque e o Segurança de gelo. O laboratório esfriou ainda mais.

Marcos ficou sozinho.

O zumbido das máquinas era a única música.

Ele olhou pra tela.

Herika na cela.

Olhar dele? Indecifrável.

Ciúme? Respeito? Ou só cálculo?

MARCOS (murmurando pro vazio):

— Sim, senhor...

NARRADOR:

"Lá fora, flash e sorriso falso. Aqui dentro, a ciência do mal continua. O palco tá vazio, mas a peça principal tá só começando."

 

 

 

Página 27: O Ronronar da Morte

NARRADOR:

"O barulho do dinheiro e da demagogia sumiu pelo corredor. O laboratório virou um túmulo de novo.

Só o zumbido das máquinas e o cheiro de formol.

Marcos não esperou nem um segundo.

A postura de "sim senhor" evaporou. Endireitou a coluna. O cientista frio voltou. Ele sabia que não estava sozinho. Nunca estava.

MARCOS (sem olhar pra trás, voz de bisturi):

— Adriele.

— Pode trazer a nossa... convidada.

Das sombras, entre os tanques, ela surgiu.

Adriele não andava. Ela escorria. O movimento era líquido, silêncio puro.

Quando ouviu a ordem, o olho brilhou.

Não era obediência de funcionária.

Era fome.

Sorriso de canto.

Lábio vermelho sangue.

Dentes brancos demais, afiados demais.

ADRIELE (voz rouca, sensualidade letal):

— É pra já, Doutor...

— A gata vai buscar o rato.

E aí, o som veio.

Não da boca, mas do peito era uma vibração baixa, que faz o pelo do braço arrepiar.

SFX (Letreiramento trêmulo, vibrante):

RRRRNNNNNN...

NARRADOR:

" Não era gatinho pedindo Whiskas.

Era o motor de uma máquina de matar aquecendo. A jaula ia abrir."

 

 

 

Página 28: A Caminhada para o Abismo

Na sala de controle, Marcos não sentia prazer.

Só... eficiência.

Ele era um relógio suíço num mundo de relógios de sol.

O dedo encontrou o botão. A física obedeceu.

No painel, o dedo dele encontrou o botão.

SFX: TSHHHH... (Ar comprimido vazando)

O vidro deslizou.

A barreira entre a presa e os predadores caiu.

A porta de vidro temperado da cela deslizou, quebrando a barreira que protegia Herika do resto do complexo — e de seus carcereiros.

MARCOS (voz distorcida pelo interfone, frieza acadêmica):

— Fim do expediente teórico, Doutora.

— O tempo de bancada acabou.

— Me acompanhe.

- Vamos para a... aula prática.

Adriele surgiu na porta ela não andava, desfilava sua postura de quem sabe que é o topo da cadeia alimentar com um sorriso de canto, aquele deboche carioca de quem vai te dar um tiro ou um beijo.

ADRIELE (sensualidade venenosa):

— Por aqui, Doutora Rodrigues.

— O Doutor odeia esperar... e eu odeio ter que carregar peso morto.

 

[CORTE PARA O CORREDOR]

Túnel branco.

Luz fria zumbindo.

Sem sombra pra se esconder.

Herika caminhava.

Coluna reta.

Queixo erguido.

Não era prisioneira sendo arrastada; era general indo pra rendição ou pro ataque.

Ela pediu essa conversa.

Ela sabia o preço.

Adriele vinha atrás. Sombra de onça seus Passos mudos mas se Herika tropeçasse, a garganta já era.

NARRADOR:

"Cada passo ecoava como uma contagem regressiva. O tempo não andava... ele corria pro precipício."

No fim do corredor, o elevador. E ele. O porteiro do inferno.

[CLOSE EXTREMO - O CONFRONTO]

A câmera fecha nos olhos. O universo colide.

De um lado, o Maná Verde a fúria da natureza, a vida que resiste no asfalto os olhos de Herika.

Do outro, o Azul Cintilante O frio do laboratório, a perfeição sintética os olhos de Marcos Cruz.

Herika parou.

Por fora, gelo. Por dentro... o corpo traiu a mente a pupila dilatou o corredor sumiu e só sobrou o tambor batendo na caixa do peito.

Mais Herika Parecia muito consciente da situação pois ela que solicitou a conversa.

SFX (Letreiramento pesado, ritmado):

THUMP-THUMP... THUMP-THUMP...

NARRADOR:

"O ar ficou denso. Cheiro de ozônio e medo. A dor não era mais promessa... era certeza."

 

 

Página 29: O Olho do Furacão

O elevador abriu.

Som de "psshhh" chique.

Marcos fez o cavalheiro. Gentileza de psicopata.

MARCOS (sorriso fino, anfitrião):

— Por aqui, Doutora Rodrigues.

— Adriele, venha conosco.

Adriele soltou aquele som de novo. O motorzinho da morte.

(sussurro satisfeito):

— Mmmm... Com prazer.

Herika parou. Olhou pra onça militar, depois pro cientista.

(fria, direta):

— Pra que a escolta? Medo de uma bióloga desarmada?

MARCOS (dando de ombros):

— Garantia, minha querida. 

- Apenas controle de qualidade.

Herika não discutiu. Sabia que não tinha voto ali. Assentiu seco.

Entrou.

[DENTRO DO ELEVADOR - A SUBIDA]

Cápsula de vidro e cromo uma joia futurista subindo pelo tubo transparente a gravidade pesou o estômago de Herika desceu pro pé.

Lá fora, o cenário mudava rápido.

Sumiu o cinza de bunker e apareceu escritório de luxo, gente trabalhando com café na mão, sem saber que o diabo mora no subsolo.

NARRADOR:

"O coração dela era um tambor de guerra, bombeando adrenalina pra um corpo que só queria dormir então o elevador parou com suavidade no último andar."

O elevador parou.

Suave.

"Ding".

Portas abertas pro terraço. Cobertura.

O vento litorâneo do Rio de Janeiro bateu no rosto de Herika, trazendo cheiro de sal e poluição.

O sol brilhava, mas era uma luz dura, implacável.

No horizonte, sobre o mar, uma muralha de nuvens negras, púrpuras e cinzas se erguia como uma onda gigante congelada. O tempo estava virando.

Narrador:

"...e o clima se transforma. A calmaria é apenas uma mentira que o céu conta antes do trovão..."

No centro do terraço, marcado por um "H" amarelo desbotado, o Dr. Marcos parou.

Ele não precisava gritar para ser ouvido sobre o vento; sua presença era suficientemente pesada.

Ele se virou lentamente.

Atrás de Herika, Adriele permaneceu na porta do elevador, cruzando os braços, uma gárgula moderna guardando a única saída.

Herika estava encurralada entre o abismo e o cientista louco.

Narrador:

"...de uma tarde de sol... para uma tempestade perfeita."

 

 

Página 30: FINAL O EPÍLOGO DO VOLUME 1

PÁGINA 30: O EPÍLOGO DO VOLUME 1

(Narrador - Tom Noir, o último suspiro antes do caos)

NARRADOR:

O vento virou uivo. Bandeiras de guerra batendo no corpo.

Acabou o papo furado. O discurso ficou lá embaixo, no ar condicionado.

Aqui em cima, o céu rachou no meio. Só sobrou a essência.

Herika e Marcos. Frente a frente.

Dois arquitetos do mesmo fim. Um abismo entre eles.

Atrás dela, o Rio brilhava. Favela dourada, asfalto quente.

JC, Vanessa, Ivan... correndo contra o relógio lá embaixo.

Ela era o último farol. A ética num mundo cego.

Atrás dele, o breu. A tempestade comia o horizonte. Chumbo derretido vindo do mar.

Marcos era o eclipse. A ciência que olha pro espelho e não vê alma, só barro.

SFX (Letreiramento gigante, rasgando a página):

KRA-KOOOOOOM!!!

Chicote de luz. Céu e mar conectados por um fio de 10 mil volts.

O prédio tremeu. Eles? Estátuas. Nem um pisco.

[ZOOM VIOLENTO - O DUELO DE OLHARES]

A câmera mergulha. Esquece a chuva, esquece o Rio. Vai na íris.

Olhos de Herika: Fogo. Ódio puro, filtrado. Medo? Zero. Ela tá pronta pra virar mártir ou assassina.

Olhos de Marcos: Gelo. Poço sem fundo. Empatia zero. Ele não vê uma mulher. Vê um erro na equação.

O vento gritou.

A primeira gota caiu. Pesada. Chumbo líquido.

PLAF! Explodiu no concreto igual tiro de 22.

A guerra tá assinada.

A caçada acabou. O pau vai quebrar.

[CORTE SECO PARA O PRETO]

Silêncio total. Vácuo.

Letras brancas surgem no meio do nada, brilhando:

FIM DO VOLUME 1

 

 

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