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Chapter 9 - Arco 3: Ponto de Ignição; Edição #6: A conexão PT.2

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A Trégua e o Abismo

Na área externa da redação, o ar estava denso.

NARRADOR:

" Lá fora, o vento batia, mas não refrescava. Vanessa fumava com ódio, baforando ritmo de metralhadora. Gabi chegou no sapatinho, pisando em ovos."

Vanessa encarava o horizonte urbano, soltando baforadas rítmicas de fumaça que dançavam ao vento antes de sumir.

GABI:(Voz suave, preocupada)

— E aí, doida... tá tudo bem?

(Olha pro chão cheio de bitucas)

— Quarto cigarro em meia hora, nega. Teu pulmão vai pedir divórcio desse jeito.

VANESSA (Carioca Tensa):

(Soltando fumaça, ombros travados)

— Tô virada no jiraya, Gabi. Tô uma pilha.

(Joga o cigarro no chão e pisa com raiva)

— Tu viu essa parada do Ministério da Saúde com a Magnus? Isso é um escudo, mermão! O desgraçado virou parceiro do Governo Federal. Tá intocável. Blindado.

GABI:(Cruzando os braços, voz de razão)

— Eu tô ligada, amiga. O bagulho é doido. Mas isso não é motivo pra tu explodir na reunião daquele jeito.

- O Ivan... pô, o cara tá tentando segurar as pontas, do jeito torto dele, mas tá.

 

 

(Vanessa murcha. A culpa bate forte.)

VANESSA:(Passando a mão no rosto, voz baixa)

— Eu sei... Puta que pariu, eu sei.

(Suspira fundo)

— Fui moleca. Fui otária.

- Descontei no Ivan a raiva que eu tenho daquele monstro do Magnus.

- Vou lá trocar uma ideia com ele. Pedir desculpa. Engolir esse sapo.

NARRADOR:

"Vanessa voltou pro corredor, ensaiando o discurso de "foi mal, chefe". Mas quando chegou na porta de vidro, o instinto falou mais alto."

(Som abafado de voz vindo de dentro da sala.)

Lá dentro, Ivan estava de costas para a porta, curvado sobre a mesa, o telefone no ouvido.

A postura não era de um chefe arrogante, mas de um homem encurralado.

IVAN(Voz baixa, trêmula, suplicante, de costas)

— Não... please, eu entendo a gravidade... mas eu preciso de um deadline maior. Só mais um pouco.

- Eu juro que a gente vira esse jogo. Eu garanto o payback. Por favor...

A Mentira Corporativa

Vanessa decidiu que a etiqueta corporativa não se aplicava a crises existenciais.

(Vanessa franze a testa. O pedido de desculpas vai pro lixo. A repórter assume.)

Ela empurrou a porta e entrou de uma vez, sem cerimônia.

(Porta abrindo com tudo. SLAM!)

 

IVAN:(Dá um pulo na cadeira, derruba café, bate o telefone)

— PUTA MERDA!

(Tenta arrumar a gravata, vermelho de susto)

— Pô, Nessa! Não sabe bater não, meu? Que susto do caramba!

Vanessa cruza os braços seus olhos, treinados para detectar mentiras em políticos e criminosos, escanearam o rosto suado de Ivan.

Olhar de raio-x. Ela escaneia o suor, a tremedeira, o café derramado.

VANESSA (A Investigadora - Seca, direta, cortante)

— Algum problema, Ivan?

IVAN:(Desvia o olhar, finge que mexe em papel, mentindo mal pra caramba)

— Não... Imagination sua. Nada de mais.

(Riso nervoso)

— Assunto de partner.

- Coisa de sócio, burocracia chata.

- Sabe como é, né? Compliance... essas coisas.

Vanessa olha pra ele como se ele fosse uma manchete falsa.

VANESSA:

— Sei... "Burocracia". Conta outra, Ivan.

 

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A Distância Entre Nós

NARRADOR:

"O silêncio no escritório pesava uma tonelada.

Não era mais chefe e funcionária.

Era um casal que já não falava a mesma língua.

O ar vibrava com aquela tensão de fim de festa ruim."

Ar condicionado zumbindo, o escritório mergulhou num silêncio pesado, cheio de palavras não ditas e mágoas acumuladas.

Ivan suspira fundo e quebra o gelo, mas a voz não tinha autoridade de chefe, apenas a fragilidade de um homem deixado de lado.

IVAN (Voz suave, sem o tom de chefe, tentando conectar)

— Vanessa...

(Ele hesita)

— Eu tô preocupado, meu. De verdade.

- Essa sua fixação no Magnus... e nesse tal de JC... isso tá te consumindo.

- Você não dorme, não come...

(Olha pra ela com mágoa)

— E, sinceramente? Você mal tem tido tempo pra gente.

- O "nós" tá ficando pra escanteio.

Vanessa tranca a mandíbula. O "nós" soa como uma cobrança absurda naquele momento.

VANESSA (Seca, cortante)

— "Nós"? Ivan, tu tá de brincadeira?

(Ela gesticula, irritada)

— A minha cabeça tá um inferno, cara.

- Meus companheiros morreram.

- Minhas provas viraram pó. E o psicopata do Magnus tá virando rei do Brasil.

(Ela encara ele)

— Sinceramente? Não tem espaço pra "drzinho de casal" na minha agenda agora.

Ivan engole seco, mas tenta o último recurso: o afeto físico ele se aproximou por trás, os braços se abrindo numa tentativa desajeitada de abraçá-la, de trazer de volta a mulher que existia antes da tragédia.

IVAN:(Se aproximando com a voz mansa)

— Eu sei, Ruiva... eu sei que tá difícil, mas...

(Ele abre os braços pra abraçar)

— Deixa eu te...

Som de roupa roçando rápido.

Vanessa se esquivou num reflexo rápido, dando um passo para o lado constrangida em um movimento brusco se esquivando, como se o carinho fosse uma ofensa.

VANESSA:(Dando um passo pro lado, como se ele tivesse uma doença)

— Não! Ivan, por favor. Agora não. Me erra.

Ivan fica com os braços no ar a rejeição física doeu mais do que os gritos na sala de reunião.

O vácuo dói mais que um tapa na cara.

IVAN:(Baixando os braços, voz amarga, derrotada)

— De novo isso, Vanessa? Sério?

(Riso sarcástico de dor)

— Virou rotina agora? Eu sou intocável também?

 

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A Promessa e a Interrupção

Percebendo que tinha pisado no calo emocional do chefe (e namorado), Vanessa mudou a tática.

Vanessa sacou que tinha apertado o calo do homem. Hora de jogar pesado então ela mudou a cara num segundo. O gelo deu lugar a um sorriso sedutor, calculado, daqueles que desarmam qualquer homem apaixonado.

VANESSA (A Sedutora Carioca):

(Sorriso safado, voz melosa, chegando perto)

— Que tal assim, amor...

(Ela passa a mão no peito dele)

— A gente vai nesse barzinho falar com o tal do JC... depois cola na tua casa.

- Eu te compenso tudinho.

- Tempo perdido? Eu dobro a aposta.

O rosto de Ivan se iluminou como uma criança na manhã de Natal. A mágoa evaporou.

(Ivan derreteu. Olhos brilhando como moleque.)

IVAN:(Já se inclinando, voz rouca de tesão)

— Agora sim, Ruiva.

- Essa é a minha garota.

(Ele fecha os olhos, vai pro beijo)

Os lábios estavam a milímetros de distância quando a porta do escritório foi escancarada com um estrondo que parecia um atentado.

 

 BAAAAAM! Porta escancarada com violência. O escritório treme, Gabi surgiu na porta, Gritando, ofegante, olhos arregalados a respiração acelerada.

GABI (A Bomba da Baixada)

— CHEFE! PRECISA VER ISSO AGORA!

Os olhos dela foram de Ivan (bico armado) para Vanessa (sorriso congelado).

Silêncio mortal. Gabi trava. Olha pro Ivan gamadinho e pra Vanessa com cara de "ops".

GABI:

(Piscando, debochada)

— ...Eita porra!!!!.

- Não sabia que a pauta tava nessa pegada, hein? Desculpa aí, atrapalhei o amorzinho.

- Mas ó... isso aqui é urgente pra cacete.

(Painel Final: Contrastes brutais.)

IVAN:(Vermelho de raiva, veia pulsando, quase explodindo)

— QUE PORRA É ESSA, GABI?! Não sabe bater na porta não, caralho?!

GABI:(Ignorando completamente, séria)

— Relaxa o bico, Chefinho.

- É melhor o senhor ver isso.

- O caldo azedou de Vez. Bora!

VANESSA:(Soltando o ar aliviado, disfarçando)

— ...

(Sorriso interno de quem escapou por pouco)

NARRADOR:

"O tesão virou ódio num piscar de olhos. Vanessa respirou aliviada. Gabi só queria salvar o dia. Mas o clima... esse sim tava detonado."

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Chamada da Contenção

NARRADOR:

"Enquanto a Rede News desmoronava em drama humano, o Laboratório Magnus seguia funcionando como uma máquina fria. Mas na Contenção 244... uma peça dessa máquina resolveu falar, o silêncio estava prestes a ser quebrado."

Zumbido de equipamentos, bipagens leves. Respiração controlada.

NARRADOR:

"Herika estava diante do terminal, mergulhada na luz azulada dos monitores.

Não tinha medo no olhar, sua expressão não havia um traço de dúvida; era puro gelo e determinação."

Agora ela encara seu terminal e acionou um botão.

[BEEP]

No laboratório principal, o santuário do Dr. Marcos, uma luz vermelha começou a piscar na tela central.

TELA (DISPLAY):

CHAMADA ENTRANTE: CONTENÇÃO 244 — DRA. RODRIGUES

(Dr. Marcos gira a cadeira devagar, quase teatral. Ele atende com um toque no painel.)

MARCOS (Tom macio, condescendente):

— Boa tarde, Doutora Rodrigues.

— Que curioso. Normalmente o protocolo prevê relatórios escritos, não chamadas de emergência.

(pequeno sorriso)

 

— Deixe adivinhar: veio pleitear alguma melhoria na dieta das suas Bradypus? Um agrado extra pras suas meninas?

O rosto de Herika surgiu no visor.

Nada de sorriso.

O olhar dela era preciso, clínico, quase tão cortante quanto o dele.

HERIKA (seca, controlada):

— Negativo, Doutor.

— Preciso falar com o senhor.

- Diretamente.

- E precisa ser agora, pessoalmente.

O sorriso de Marcos não desapareceu de vez a curiosidade no rosto do cientista sênior deu lugar a uma desconfiança afiada, ele se ajustou, ficando mais contido, mais analítico.

Ele reconheceu o timbre.

Não era o tom submisso de uma cobaia colaborando pelo contrário era o de alguém que achou uma variável que ele ainda não controlava.

MARCOS(tom professoral, sem perder a elegância):

— Muito bem.

— Quando uma mente competente diz "agora", vale a pena ouvir.

— Vou mandar busca-la Doutora.

Dr. Marcos finalizou a chamada com um ar curioso em seu rosto.

(PENSAMENTO)

"O que a sua análise encontrou de tão... urgente no nosso pequeno ecossistema controlado?"

 

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A Visita da "Escória"

Mas nem tudo são flores, nem mesmo para o gênio do mal.

As portas automáticas do laboratório principal se abriram com um silvo seco, cortando a concentração de Dr. Marcos como um bisturi mal usado.

Mauro Magnus entrou primeiro, terno impecável irradiando poder, sorriso de quem acha que o mundo é um ativo sob seu CPF. Ao lado dele, deslocado daquele cenário clínico, vinha o Deputado Edu — olho brilhando para os equipamentos como se fossem discos voadores.

MAURO MAGNUS (anfitrião confiante):

— Deputado Edu...

— Deixa eu te apresentar o cérebro por trás da nossa operação farmacêutica.

- Dr. Marcos Cruz.

Dr. Marcos respirou fundo, relaxou a mandíbula à força e estendeu a mão com educação cirúrgica.

MARCOS(cordial, mas distante):

— Uma honra conhecê-lo, Deputado.

— Falam muito do seu... papel estratégico na consolidação das nossas parcerias.

Edu agarrou a mão do doutor com as duas mãos, sacudindo como se estivesse cumprimentando um peão em leilão.

DEPUTADO EDU (mineiro liso, voz melosa):

— Ô, que isso, Doutor! A honra é minha demais da conta!

— Um cabra importante igual ocê... eu é que tenho que agradecer de chapéu na mão, uai.

Assim que as mãos se soltaram, o sorriso de Marcos sumiu como vapor anestésico. Atrás das lentes, o olhar dele ficou de gelo.

(Pensamento de Dr. Marcos, seco e cruel)

"Escória. Parasitas de terno. Vampiros que mamam na inteligência alheia e ainda se acham indispensáveis."

Magnus, ignorando — ou simplesmente desprezando — o incômodo do cientista, pousou a mão no ombro do deputado, conduzindo-o pelo corredor interno.

MAURO MAGNUS (pragmático, seguro):

— Vamos, Deputado. Quero te mostrar uma "amostra grátis" do futuro.

— Fernando.

Das sombras, o gigante surgiu. Passo pesado, presença de muralha.

FERNANDO (curto, militarizado):

— Positivo, senhor. Acompanhando.

O trio seguiu pelo corredor. Atrás, ficaram apenas as luzes frias, o cheiro de reagente… e o desprezo silencioso do homem que realmente fazia aquele inferno funcionar.

O gigante híbrido deu um passo à frente, o som de suas botas pesado no chão.

— Positivo, senhor. Acompanhando.

O trio seguiu pelo corredor.

Atrás, ficaram apenas as luzes frias, o cheiro de reagente… e o desprezo silencioso do homem que realmente fazia aquele inferno funcionar.

 

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O elevador desceu pra onde visita normal nunca pisa. Cada andar a menos, a luz mudava: do branco de hospital pro âmbar abafado de pesadelo.

O Elevador para de repente as portas se abriram em um local bem familiar a Sub-seção C3.

O ventre da besta.

O cheiro ali não era de álcool e desinfetante.

Era de formol, metal... e um rastro fantasma de sangue seco.

O Deputado Edu, que até pouco tempo atrás gargalhava alto, agora apertava o chapéu nas mãos.

O olho miúdo rodava de um lado pro outro, desconfiado.

Quando a porta do laboratório secreto abriu de vez, ele travou.

Nada de microscópio, computador, quadro com gráficos.

Oito macas de metal mais só seis macas cobertas cada uma com um lençol branco.

O problema não eram os lençóis.

Eram os contornos debaixo deles: humanos... mas tortos.

Edu empalideceu.

DEPUTADO EDU (voz falha, mineiro assustado):

— Ô... sô... que trem é esse aqui, Sr. Magnus...?

— Que que ocê anda aprontando nesse porão, hein?

 

A câmera fechou em Magnus o sorriso de empresário bonzinho sumiu, o que sobrou foi puro orgulho e deboche.

MAURO MAGNUS (calmo, quase didático):

— Isso, meu caro, é visão.

— A fundação do novo Brasil.

- Não aquele que você finge administrar em plenário.

- O que eu vou reescrever aqui, de baixo pra cima.

Assustado com a resposta e com as formas sob os lençóis, Edu deu um passo trêmulo para trás, buscando instintivamente a saída.

Mas suas costas encontraram um obstáculo sólido como uma parede de concreto.

[THUMP]

Ele se virou e teve que inclinar a cabeça para cima, Fernando estava ali.

Parado.

Um muro de músculo e obediência sem um centímetro de espaço pra fuga bloqueando qualquer recuo.

[SOM: THUMP!]

O deputado engoliu em seco, a nuca molhada de suor frio, sentindo-se um inseto entre gigantes.

Magnus, embriagado pela própria ambição continuou andando entre as macas, como se estivesse num showroom de carros de luxo ignorando o pavor do convidado.

 

MAURO MAGNUS (entusiasmado, perigoso):

— Com o Ministério da Saúde na palma da mão, a próxima etapa fica... simples.

— Validação humana em larga escala.

- Sem burocracia.

- Sem comissões éticas.

- Sem voto em plenário.

O suor escorreu pela têmpora de Edu.

Ele queria estar de volta no cafezinho da Câmara, onde o mal-usava gravata e discutindo orçamento e emenda, não diante de cadáveres cobertos.

DEPUTADO EDU (forçando um riso nervoso):

— N-não... claro, claro... projeto grandioso, né?

— Hehe... falando nisso, só pra constar, viu... aquela reunião nossa com o presidente do partido...

- já tá marcadinha pra sexta, certinho. Tudo "ajeitado".

Ele tentava puxar o mundo de volta pra política de sempre mas ali embaixo, o jogo era outro e ele era só mais um peão olhando os deuses brincarem com carne humana.

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A Fachada Cai

O clima na Sub-seção C3 desceu um degrau.

A reunião ficou esquisita virou pesadelo em câmera lenta de tensão política" para "terror puro".

Ao ouvir sobre o encontro com o presidente do partido, Magnus abriu um sorriso, mais não de alívio e nem um sorriso de gratidão, era o sorriso de um predador que está vendo a presa se enroscar em sua armadilha.

MAURO MAGNUS (saboreando cada sílaba):

— Perfeito.

— Com a presidência do país no nosso colo, meu caro Edu... a dominação total fica muito mais simples.

A palavra ficou suspensa no ar frio do laboratório.

Dominação.

Um close no rosto do Deputado Edu desmontou um certo pânico, rompendo a represa da compostura, aquela maquiagem de político "do povo" derreteu.

DEPUTADO EDU (gaguejando, apavorado):

— Do... dominação?

— Cê tá brincando, né, Magnus? A gente tá falando de eleição, de campanha... de voto, pô...

Magnus chegou mais perto, invadindo o espaço vital dele, o cheiro do perfume caro contrastava com o suor frio do mineiro.

 

Sua voz baixou para um sussurro sedutor e maligno, a voz da serpente no jardim.

MAURO MAGNUS (sussurro maligno):

— Você acha mesmo, de verdade, que eu fiquei bilionário vendendo xaropinho de tosse e vitamina C, Edu?

— A farmacêutica é embalagem.

- Marketing.

- O dinheiro, no fim das contas... é detalhe.

Ele abriu os braços, como um profeta diante do altar. As macas, os lençóis, o maquinário — tudo fazia parte do sermão.

MAURO MAGNUS:

— A minha obra de verdade... o coração do projeto... tá aqui embaixo.

— Na carne.

- No sangue.

- No código.

Então, sem olhar de novo pro deputado, virou o rosto na direção da porta.

Ele se virou para a montanha de músculos parada na porta sua voz voltou a ser um comando militar, inquestionável

MAURO MAGNUS:

— Fernando.

— Faça as honras pro nosso ilustre convidado. Mostra pra ele o futuro.

FERNANDO (curto, automático):

— Sim, senhor.

O gigante deu um passo à frente, pronto pra erguer o lençol e arrancar de vez o véu que separava a política... do horror.

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A Coleira do Dono

As botas de Fernando marcavam o ritmo no chão, se aproximando da primeira maca.

Enquanto isso, a voz de Magnus tomava o ambiente. Não era mais conversa de corredor.

Era pregação.

MAURO MAGNUS (tom solene, quase religioso):

— Este país, Deputado...

— tem o sangue de um titã correndo nas veias.

- Nasceu pra ser gigante.

- Pra fazer o mundo tremer quando pisa.

Ele deu alguns passos, circulando Edu como quem avalia um animal doente quando Mauro parou na frente de Edu, olhando-o de cima a baixo com nojo mal disfarçado.

MAURO MAGNUS:

— Mas adoeceu. Foi contaminado por uma febre imunda.

— Corrupção endêmica, mediocridade institucionalizada...

— Encarnada em figuras como você.

- Parasitas elegantes que sangram o corpo até ele ficar de joelhos, mendigando esmola internacional.

O orgulho ferido de Edu tentou subir à superfície.

Ele ajeitou o colarinho, buscando uma dignidade que já tinha escorrido com o suor.

 

DEPUTADO EDU (forçando firmeza, mineirês mascarando o medo):

— Ô, Magnus, num vem com essa de boi manso não, uai!

— Política é igual capim: tem que saber pastar no meio da cerca! Eu seguro muito rojão lá no congresso, sô! Tem nuance, tem articulação... o povo me ama, pô!

Sem aumento de volume.

Só gelo.

MAURO MAGNUS (frio como lâmina):

— Cale-se. Seu merda.

As palavras bateram nele como tapa, Edu congelou, a boca aberta sem som.

Magnus inclinou levemente a cabeça, cravando o olhar no deputado pois não era uma discussão, era execução moral.

MAURO MAGNUS:

— Você só senta naquela cadeira em Brasília por causa do meu dinheiro.

— Sem mim, você volta pro mato puxando enxada e metade da sua laia some no próximo ciclo eleitoral.

— Vocês não são líderes.

- São funcionários de luxo. Caros... e, na maior parte do tempo, pateticamente incompetentes.

Edu tentou reagir.

Edu abriu a boca pra retrucar — falar de "voto do povo", "base eleitoral", "causa do pobre".

Mas o olhar de Magnus — frio, predador — matou qualquer frase antes do primeiro fonema.

O silêncio caiu pesado.

A coleira invisível apertou.

O deputado baixou a cabeça e o corpo inteiro dizia o que a boca não conseguia: ele tinha entendido a hierarquia.

Ali embaixo, no laboratório, o "representante do povo" não passava de cão de guarda alugado é o dono da coleira tinha nome e sobrenome: Mauro Magnus.

 

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Guerra Civil na Redação

Se o Laboratório Magnus era o inferno gelado, a Rede News tinha se transformado no inferno em chamas.

O hall principal parecia baile funk dos anos 90 prestes a virar tiroteio, As cores das camisas e dos ânimos.

Ar pesado, elétrico.

Camisas azuis vs vermelhas, como torcida organizada.

De um lado, os Defensores, armados com a moral e a lealdade cega.

DEFENSORES (lealdade cega):

— NÃO VAMOS VIRAR VENDIDO! Gritavam, defendendo o brasão da família Ivan.

Do outro, os Incitadores, armados com o desespero financeiro.

INCITADORES (boletos na mão):

— TEMOS FILHO PRA CRIAR! CONTA PRA PAGAR! Berravam, olhos vermelhos de desespero.

 Ivan, Vanessa e Gabi chegaram correndo ao epicentro do caos.

VANESSA (Carioca horrorizada):

— PARA COM ISSO, PORRA!

— Vocês tão loucos?! Isso aqui é redação, não final de campeonato!

 

Gabi se jogou na linha de frente, no meio da divisa invisível da confusão.

GABI (Baixada no front, voz de rua):

— Ô, GALERA! QUE É ISSO, CARALHO?!

— NÃO, GALERA! QUE ISSO?! ISSO AQUI NÃO É BAILE FUNK! NÃO TEMOS LADOS AQUI, SOMOS UMA FAMÍLIA!

A voz dela sumiu no barulho.

Ivan, atônito, tentava usar sua calma paulistana tradicional, que ali parecia tão útil quanto um guarda-chuva num furacão.

IVAN (Paulista desesperado):

— PESSOAL! PELO AMOR DE DEUS!

— Isso aqui é empresa, não escola de samba! Comporte-se, meu! Ordem no team!

Mas a razão tinha saído do prédio.

O confronto parecia inevitável.

Armas improvisadas surgiram: grampeadores pesados, canecas de cerâmica, laptops erguidos como escudos, cadeiras giratórias prontas para serem arremessadas.

O Chefe de Redação, liderando os fiéis, gritou para os demais:

— SE ELES VIEREM PRA CIMA, PAU NELES!

O Cinegrafista veterano, liderando a revolta dos boletos, incitou o povo:

— MEUS BOLETOS NÃO ESPERAM NADA! VAMOS COM TUDO!

O clima fechou de vez.

 

Narrador:

"Assim como o Dr. Marcos previu em sua pesquisa fria, não precisa de soro.

O Medo no ser humano aflora sua pior face e só isso basta para o bicho sair da jaula.

Não é preciso soro para despertar o monstro; basta o medo nos momentos de tensão mais aguda."

A confusão estava prestes a explodir em violência física real as expressões eram animalescas, dentes trincados, polarização pura e extrema.

Ivan, a ponto de um infarto, gritava para ninguém:

— MEU DEUS! ISSO TÁ FORA DE CONTROLE! PARA, PESSOAL!

No meio do pandemônio, Vanessa percebeu que a diplomacia tinha morrido e o levar no papo não adianta mais..

VANESSA (murmurando):

— Fudeu... só tem um jeito.

Ela berrou pra Gabi, no fogo cruzado.

VANESSA:

— Ô, DOIDA! VEM CÁ! TENHO PLANO!

Gabi desviou de copo voador, sagacidade de favela full, correu em direção à amiga.

GABI:

— JÁ TÔ, RUIVA! BORA QUEBRAR TUDO!

Enquanto Ivan implorava pros céus corporativos, aos deuses da gestão, Vanessa e Gabi preparavam a cartada final para impedir o massacre.

 

 

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O Banho de Água Fria – "Literalmente"

No corredor central, Vanessa corria com a determinação de quem vai desarmar uma bomba, com sua fiel escudeira ao lado.

GABI (Baixada suada):

— RUIVA, QUE PORRA É ESSA, DOIDA?!

— Tu vai fazer o quê, hein?!

Vanessa apontou para a parede, sagaz

VANESSA (Carioca sagaz):

— OLHA ALI! Pega o extintor vermelho!

— Única parada pra apagar esse incêndio é banho gelado na cara deles!

Gabi olhou nos olhos da amiga e, por um breve momento, viu o brilho da velha guerreira, a Vanessa que resolvia problemas em vez de chorar por eles.

Ela sorriu e arrancou o cilindro vermelho do suporte.

De volta ao campo de batalha do Hall, onde grampeadores e copos voavam como granadas, as duas surgiram no mezanino como Valquírias do CO2.

VANESSA (berrando):

— Ô, GALERA! SACA SÓ ISSO AQUI!

Todos congelaram, olhando pra cima.

Antes que pudessem entender, Gabi destravou o pino, com um ar de uma salvadora caótica e gloriosa.

GABI (gritando, arma na mão):

— É PRO BEM DE VOCÊS! TOMA AÍ, SEUS PUTOS!

 

[PSSSSSSSSHHHHHHHHHH!]

Jato gelado de pó branco explodiu. Visão zero. Tosses, urros sufocados.

IVAN (apático, branco):

— GIRLS, QUE É ISSO, PORRA?!

Como animais acuados por uma tempestade repentina, os "monstros" corporativos recuaram, tossindo, cobrindo os rostos, a fúria substituída pelo choque térmico e pela falta de ar.

CHEFE DE REDAÇÃO (tossindo, pó na boca):

— JÁ DEU, CARALHO! PAREM!

CINEGRAFISTA (arregando):

— BELEZA! ARREGOU! EU ARREGOU!

Narrador:

" O clima se acalmou na marra. O ambiente quente e explosivo deu lugar a um silêncio frio, branco e empoeirado. Quem não tem Gênesis para controlar a fúria, usa extintores ABC."

A névoa começou a baixar, revelando a Dupla Dinâmica no mezanino, vitoriosas.

VANESSA (rindo, limpando cílio):

— Conseguimos, Gordinha!

Gabi, ainda segurando a mangueira do extintor como uma arma fumegante, soltou um suspiro aliviado e estranho.

GABI (extintor fumegando, safada):

— Sabe que eu fiquei molhadinha com isso? Tipo... excitada pra caralho.

VANESSA (olhar "sério agora?"):

— GABI! FOCO, MULHER!

 

Mas a tensão se quebrou, e as duas, cobertas de pó químico, caíram na gargalhada, o som ecoando no salão silencioso.

Ivan, no andar de baixo, tentando se recompor de toda essa situação.

(embaixo, limpando óculos, humilhado/aliviado):

— Meninas... não sei o que seria dessa empresa sem vocês, meu.

Mas nem tudo eram flores (ou pó branco) na Rede News.

... no canto escuro do hall, três sombras observavam a cena.

Silenciosas e ameaçadoras.

Frias.

Esperando o caos virar oportunidade que precedia a queda final.

 

 

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A Visita da Maleta Preta

NARRADOR

"O pó químico ainda pairava quando a luz do hall iluminou as sombras. Três engravatados saíram do escuro. Ternos que custavam o salário anual da redação. O da frente carregava maleta preta como se fosse urânio."

O homem à frente, o líder silencioso, segurava uma maleta preta com a firmeza de quem carrega segredos nucleares.

O Engravatado 2, com um sorriso protocolar, quebrou o silêncio.

ENGRAVATADO 2 (Cordial técnico, sorriso falso):

— Com licença aí, por gentileza...

— Qual de vocês é o Sr. Ivan Alencar?

(Olhar de quem lê contrato)

Tensão mudou.

De briga de bar pra intimidação de terno.

A violenta passou a ser burocrática e perigosa pois todos os olhares se voltaram para o chefe coberto de pó.

IVAN (confuso, óculos tortos):

— Eu sou, meu. Ivan Alencar.

— Quem são vocês?

Gabi e Vanessa trocaram olhares rápidos.

Ninguém conhecia aqueles homens.

Os três avançaram pelo salão destruído com total tranquilidade, desviando de poças de café e cadeiras tombadas com um leve desdém nos olhos.

 

O ar pesado do pós-guerra na redação agora ficava gelado.

ENGRAVATADO 3 (Explosivo, impaciente):

— Precisamos trocar uma ideia contigo. Já.

— Em particular. Bora resolver isso logo.

Imediatamente, a Guarda Pretoriana de Ivan entrou em ação.

Gabi deu um passo à frente, estufando o peito, tentando impor sua autoridade de quase-braço-direito.

GABI (Baixada braba):

— Ei, ei! Quem são vocês pra chegar assim no MEU CHEFE?

— Agenda lotada, pô! Sai fora!

Vanessa, sacudindo o pó do ombro, entrou com o deboche afiado como navalha.

VANESSA (Carioca afiada):

— Marcaram hora com o Sr. Ivan?

— Hoje tá... explosivo a agenda, sacou?

Mas a ironia bateu na parede de indiferença dos visitantes.

Eles praticamente ignoraram as duas e focaram no alvo.

Ivan, recuperando um pouco da postura, limpou a garganta.

(recuperando pose):

ENGRAVATADO 2 (técnico, sorriso frio):

— Só uma conversa reservada, Sr. Alencar.

— Pode ser agora... ou agora mesmo?

o Engravatado 3, olhando o relógio caro.

 

Nesse momento, o Engravatado 1, o da maleta, tomou a frente. Sem dizer uma palavra, estendeu a mão sorriso peculiar, seco.

Aperto gelado num sinal de respeito calculado.

Ivan, movido pela educação automática, retribuiu o aperto.

Ao fundo, Vanessa sussurrou, os olhos estreitos de suspeita.

VANESSA:

— Quem é esses maluco, Gabi?

GABI:

— Nego nenhum. Mas o perfume fede a encrenca.

 NARRADOR:

"O faro de uma jornalista experiente é mais apurado que o de um perdigueiro. Vanessa sentiu o arrepio na nuca. Algo ruim estava entrando naquela sala. Algo pior que a falência."

Ivan cedeu, apontando pro aquário de vidro.

— Por aqui.

- Minha sala.

- Vamos conversar direito.

Os três o seguiram como corvos, a porta se fechou, isolando o destino da Rede News dentro de quatro paredes de vidro.

 

 

 

 

 

 

 

PÁGINA 27

A Maleta de Rodrigo

A porta de vidro mal tinha fechado quando foi aberta novamente.

Gabi e Vanessa entraram marchando, recusando-se a deixar o chefe sozinho com os lobos.

GABI (Baixada mandona):

— Dá licença aí, que a gente também entra nessa bagaça!

— Ninguém deixa MEU chefe sozinho com esses aí!

Ivan, em vez de repreendê-las, soltou o ar dos pulmões.

— Obrigado, meninas... sério.

(Olhar de "salvou minha pele")

— Vocês são três.

- Não é justo ele sozinho.

— Agora tá parelho.

- Igualdade numérica, sacou?

O Engravatado 1, sorriu com uma serenidade simpática que não chegava aos olhos.

— Sem problema, senhoras.

— Já que fazem parte da... família.

O clima na sala mudou de frio para um desconforto viscoso.

O Engravatado 3, bufou, ajeitando a gravata com impaciência arrogante.

— RODRIGO(se referindo ao Engravatado 1)

- Por mim não faz diferença.

- Nossa missão aqui é uma só.

Gabi, incorrigível, olhou para a arrogância de Rômulo e seu radar de "dedo podre" apitou.

GABI (sussurrando, mordendo lábio):

— Hummm... delícia esse marrento...

Vanessa sentiu a vergonha alheia bater forte e deu uma cotovelada discreta (mas dolorida) na costela da amiga.

— FOCO, MULHER! Toma jeito!

GABI (baixinho):

— Ai, sua vaca!

O aquário envidraçado de Ivan virou o centro das atenções de toda a redação que estpá inteira grudada no vidro.

Sombras duras, luzes Noir nos rostos.

lá fora.

O Engravatado 2, olhou para o chefe.

— Anda, Rodrigo. Temos um dia cheio.

RODRIGO (calmo hipnótico):

— Calma, Rafa. Calma. Já resolvemos.

Rômulo, impaciente, insistiu.

— Droga, Rodrigo! Anda logo, estamos perdendo tempo aqui com essa ralé!

O tempo na sala parou por um segundo.

Rodrigo virou devagar pro subordinado.

Voz baixa.

Bizarra.

Dominante.

RODRIGO:

— Rômulo...

— Já disse. Calma.

A arrogância de Rômulo evaporou instantaneamente.

O homem encolheu os ombros, dominado por aquele comando suave e terrível.

Vanessa e Gabi trocaram olhares assustados.

Vanessa e Gabi: olhar de "que porra é essa?".

(Pensamento delas: "Esse cara é foda... estranho pra caralho.")

Rodrigo voltou sua atenção para Ivan, o sorriso sereno inalterado.

— Então, Sr. Ivan... o motivo da visita.

[CLACK. CLACK.]

Maleta preta na mesa de mogno. Travas abertas. Mão dentro.

Ele levantou a tampa e enfiou a mão dentro.

Coração de Ivan parou.

Vanessa prendeu ar.

O que sairia dali mudaria o destino de todos?.

 

 

PÁGINA 28

A Herança de Dívidas

O suspense acabou não com um estrondo, mas com o farfalhar suave de papel de alta gramatura.

Rodrigo puxou um cartão de visitas e o colocou sobre a mesa com delicadeza cirúrgica.

— Sr. Alencar, venho em nome da M. CORP ASSOCIADOS.

— Cessão de créditos devidamente formalizada perante o cartório.

(Sorriso bizarro, olhos mortos)

Vanessa gelou. Sangue subiu.

VANESSA (Carioca paranoica):

EM SEUS PENSAMENTOS - O "M" gritava "Magnus" em sua mente vingativa.

"M. CORP?

Isso aí grita Magnus pra caralho!"

A tragédia estava servida.

RAFA (Técnico jurídico, seco):

— Somos advogados constituídos.

— Bacharéis em Direito, OAB em dia. Nobilitas fori.

Ivan não demonstrou surpresa.

Ele apenas afundou milímetros na cadeira.

— Eu já sacava...

(Murmurando)

— Vem o inevitável.

 

Rodrigo continuou, abrindo uma pasta.

— Sr. Alencar, a M. Corp é cessionária dos seus créditos inadimplentes.

— Execução de dívida com base no art. 286 do CPC. Analise os títulos, por obséquio.

Ivan pegou os papéis sem hesitar. Seus olhos correram pelas linhas familiares de juros e multas.

— Reconheço. Empréstimos não quitados.

— Mas tenho renegociação em aberto.

- Prazo judicial.

 (Narrador: O problema, às vezes, não é só enfiar a faca. Você tem que girar devagar pra doer no osso..)

RÔMULO (Explosivo jurídico):

— Rodrigo, sem frescura! Direto ao ponto!

— Protesto em cartório já rolou!.

Vanessa fuzilou o advogado mais jovem com o olhar.

(rosnando):

— Não aguento esse pivete...

— Vou voar no pescoço dele!

Mas a tortura continuou.

 

PÁGINA 29

Rodrigo puxou mais documentos da maleta, cobrindo a mesa com um mar de recibos amarelados e notas promissórias antigas.

RODRIGO (Juridiquês cirúrgico):

— Claro, Sr. Alencar. Os prazos bancários a gente conhece.

— Mas esses aqui... vencidos e não renovados. Art. 395 CC.

— Mora configurada.

Ele entregou, de forma gentil e prestativa, a bomba final: Notas e promissórias de agiotas, assinadas não por Ivan, mas por seu pai.

O herói. A lenda. O caloteiro.

Gabi espiou por cima do ombro. Olhos úmidos.

GABI (Baixada chocada):

— Chefinho... que porra é essa? Seu pai assinou isso?

Ivan respondeu apenas com um aceno de cabeça lento, doloroso. A vergonha doía mais que a falência.

Rafa interveio.

RAFA (Bom policial, misericordioso falso):

— Não é tudo irremediável, Sr. Alencar.

— Possibilidade de acordo extrajudicial.

Rodrigo finalizou com requinte de crueldade, deixando uma fresta de luz num quarto escuro.

 

RODRIGO (Cruel refinado):

— Exato. O senhor ainda tem uma janela.

— Composição amigável antes da execução.

Vanessa e Gabi acompanhavam a queda moral e profissional de um homem íntegro, vendo a dignidade dele ruir sob o peso de assinaturas antigas.

Rômulo olhou para o relógio e decretou:

— O Senhor tem um Prazo, Senhor Alencar.

- E ele está correndo.

 

PÁGINA 30 (FINAL)

Bem-Vindos ao Inferno (Corporativo)

A sala de reuniões se tornou o palco da última batalha.

RODRIGO (Juridiquês blasé):

— Sr. Alencar, meu cliente é homem justo.

- Empreendedor visionário.

— Por isso concede um prazo de quitação total. Arts. 421 e 422 CC.

Vanessa repetiu as palavras mentalmente com ódio, segurando o vômito para não sujar os ternos Hermes dos visitantes.

GABI (sussurrando, tensa):

— Ruiva, segura a onda! Não arruma mais B.O.! Esse terno aí vale meu apê quitado!

Rômulo, surpreendentemente, riu.

RÔMULO (rindo, surpreso):

— Até que essa mina aí é bem interessante.

- É uma bela figura.

Gabi, fiel ao seu DNA caótico, respondeu ao elogio com uma piscada safada, deixando o advogado arrogante sem jeito pela primeira vez.

Ivan, focado na sobrevivência, foi direto ao ponto.

IVAN (direto, sobrevivência):

— Qual o prazo? 24? 48? Dá a facada logo!

 

Rodrigo sorriu, blasé.

— Sr. Alencar, a M. Corp Associados, sob a orientação do meu cliente, lhe dá um prazo de 30 dias.

- Pra tudo.

— Bancário. Agiota. Herança paterna. Inadimplência total.

O choque foi coletivo.

Um mês.

Não era a morte imediata.

Era uma chance.

Uma ponta de esperança no fim do túnel.

NARRADOR

"Mas nem todas as notícias são um mar de felicidade. A porrada mortal vem sempre depois do fio de luz."

RÔMULO:

— Não honrar?

- Assumimos a Rede News.

- Limpa geral.

RAFA:

— Demissões em massa.

- Reestruturação radical.

RODRIGO (sádico):

— Nova linha editorial.

- Pacote completo. 

- Art. 1.179 CC.

 

 

O silêncio durou um segundo.

Depois, a indignação virou combustível.

Ivan levantou, alma acesa.

— Avise seu chefe: Rede News NÃO TÁ À VENDA!

- Vamos vencer essa porra!

GABI (punhos cerrados, pronta para a briga):

— É ISSO, CHEFINHO! Estou ovulando em nível máximo, pronta pro desafio! Cai dentro!

VANESSA (dedo na cara, grito de guerra):

— ISSO MESMO! NÃO VAMOS DESISTIR NUNCA! VAMOS LUTAR ATÉ O FIM! A REDE NEWS É A VOZ DO POVO, A VOZ DAS MASSAS! E PODE LEVAR ISSO PRO SEU CHEFE!

A euforia e os gritos de liberdade bateram na parede fria dos advogados e escorreram.

Eles se levantaram, recolhendo os papéis com a calma de quem já viu esse filme mil vezes e sabe o final.

Caminharam em direção à saída, convictos de que o recado foi dado.

— Eles jamais vão conseguir.

RODRIGO (baixo, pros seus):

— Jamais vão conseguir.

- Ninguém vence o Chefe.

— Ninguém até hoje conseguiu vencer o Chefe.

Enquanto deixavam a sede da emissora, o clima no hall era de apreensão. Todos os funcionários olhavam, querendo saber se ainda tinham emprego.

Vanessa, movida pela adrenalina, correu até a porta de vidro, interceptando os três na calçada.

— DIGA AO MAURO MAGNUS QUE NÃO VAMOS DESISTIR!

Girou nos calcanhares e olhou para ela com aquele sorriso puro, angelical e absolutamente aterrorizante.

— Bem-vindos ao Grupo Magnus, senhorita.

Entrou no carro preto blindado.

Vitória no rosto.

Guerra declarada.

Cronômetro: 30 dias. Tic-tac.

FIM DA EDIÇÃO #6

 

 

 

 

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