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OS SETE VÉUS DE ELYNDOR

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Synopsis
Os Sete Véus de Elyndor Em Elyndor, a magia não nasce de palavras ou gestos, mas do que você sente quando precisa escolher quem realmente é. Quando sete jovens de origens, dores e talentos distintos são convocados para a Academia dos Véus, eles descobrem que a magia daquele mundo responde à emoção, à intenção e àquilo que foi escondido por tempo demais. Cada Véu representa um estado interno como medo, raiva, amor, culpa, desejo, fé e perda, e atravessá-los exige mais do que poder. Exige verdade. Entre eles está Arin, um Desperto relutante que sente o mundo de forma intensa demais, como se a realidade pulsasse dentro do próprio corpo. O que ninguém sabe é que sua existência está ligada ao Coração de Elyndor, uma força ancestral capaz de unir ou destruir todos os Véus. À medida que fissuras começam a rasgar o equilíbrio entre os mundos, a Academia deixa de ser um refúgio e se transforma em um campo de escolhas impossíveis. Alianças se quebram, segredos vêm à tona e cada um precisa encarar a própria sombra antes que ela consuma tudo. Os Sete Véus de Elyndor é uma fantasia épica sobre pertencimento, identidade e o preço de crescer. Uma história onde a maior batalha não é contra monstros ou deuses, mas contra aquilo que você evita sentir. Porque em Elyndor, a verdadeira magia começa quando você para de fugir.
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Chapter 1 - Capítulo 1: O Som do Vidro Invisível

Arin Vale sempre soube que o mundo era feito de camadas, embora nunca tivesse encontrado as palavras certas para explicar isso a alguém. Para os moradores da vila de Porto Sereno, a realidade era sólida e confiável. O cheiro de peixe seco, o calor incômodo do sol do meio dia, o peso real das moedas de cobre na palma da mão. Para Arin, no entanto, tudo parecia instável. Às vezes, as bordas das coisas vibravam, como se a realidade fosse apenas um tecido mal esticado cobrindo algo muito maior.

Naquela tarde, o mercado estava sufocante. Arin tentava se concentrar em uma tarefa simples, comprar provisões, mas as vozes ao redor começaram a se distorcer. Não ficaram mais altas nem mais baixas. Apenas erradas, como um coro fora de sintonia.

— Arin? Garoto, você está me ouvindo?

A voz do mercador Silas atravessou a névoa que se formava em sua mente.

Silas era um homem de rosto sempre avermelhado e mãos grossas, alguém que acreditava apenas no que podia tocar. Arin era o oposto. Magro demais para o trabalho pesado, com cabelos escuros e indisciplinados que insistiam em cair sobre os olhos. Olhos que naquele momento estavam estranhamente dilatados, de um tom cinza azulado que parecia refletir um céu instável.

— Eu vou pagar, Silas. Só um momento — respondeu Arin em voz baixa.

Ele estendeu a mão para pegar um pequeno amuleto de bronze sobre a bancada. No instante em que seus dedos tocaram o metal, o mercado desapareceu.

Não fisicamente. O som das carroças, os gritos dos vendedores e o bater dos martelos do ferreiro tornaram se distantes, abafados, como se ele tivesse mergulhado em águas profundas. O ar ao redor de sua pele ficou denso, carregado de uma eletricidade invisível que fez os pelos de seus braços se arrepiarem.

Respira. Ancora.

A voz não veio de fora. Ela surgiu na base de sua nuca, silenciosa e urgente.

Arin fechou os olhos com força. Seu coração batia contra as costelas como um pássaro preso em uma gaiola. Ele odiava aquela sensação. O medo sempre era o gatilho. Sempre que se sentia encurralado, o mundo começava a vazar.

— Garoto, se não tem moedas, saia da frente — resmungou Silas, passando a mão pesada diante do rosto de Arin.

Para o mercador, não havia nada ali além de poeira e comércio. Mas quando Arin abriu os olhos, viu o que Silas não podia.

O Véu havia se alinhado.

As sombras entre as barracas não eram mais apenas ausência de luz. Ganharam volume. Tornaram se densas, quase líquidas, movendo se de forma independente dos objetos que deveriam projetá las. Símbolos antigos, dourados e efêmeros como brasas ao vento, pulsaram no ar à altura de seus olhos.

E então, ele a viu.

A mulher estava parada no meio do caos, imóvel, enquanto a multidão passava por ela como se atravessasse um espaço vazio. Alta, postura rígida, uma autoridade cansada impregnando cada gesto. Usava túnicas de um azul tão profundo que quase parecia negro, presas por broches de prata que brilhavam com luz própria. O rosto era anguloso e severo, emoldurado por cabelos brancos que não pareciam sinal de idade, mas de algo quebrado muito tempo atrás.

— Você demorou — disse ela.

A voz era baixa, mas ressoou dentro dos ossos de Arin.

Ele deu um passo para trás, esbarrando em um cesto de grãos que não chegou a sentir.

— Quem é você? Como está fazendo isso?

— Eu não estou fazendo nada, Arin Vale — respondeu ela, aproximando se. Seus olhos eram o que mais assustava. Dourados pálidos, sem uma divisão clara entre íris e pupila, como se enxergassem o mundo em outra frequência. — Você é quem está sustentando isso. Está mantendo o Véu aberto com o seu medo. Se não aprender a ancorar, ele vai consumir você antes do pôr do sol.

Arin olhou para as próprias mãos. As pontas dos dedos começavam a ficar translúcidas.

— Eu não sou herói. Eu sou só um carregador de mercado.

— Heróis são uma invenção de quem fica para trás para contar a história — disse ela, estendendo a mão. Seus dedos eram marcados por pequenas cicatrizes que brilhavam em preto, como vidro vulcânico sob a pele. — Eu sou a Mestra Althea. E sou a única razão pela qual você ainda não se fragmentou em mil pedaços.

O chão sob os pés de Arin vibrou. Um som semelhante a tecido sendo rasgado ecoou pelo ar, mas ninguém no mercado reagiu. Ao lado de Althea, o espaço se dobrou. Uma moldura de luz líquida se abriu, revelando torres de pedra suspensas sobre um mar de nuvens prateadas.

— A Academia — disse ela, apontando para o arco luminoso. — Onde as emoções encontram forma. Ou onde nos destroem.

Arin olhou para Silas, que continuava discutindo com outro cliente a poucos passos dali, completamente alheio à fenda aberta na realidade. Olhou de volta para Althea e então para o próprio peito, onde a ressonância o puxava como um ímã.

— O que acontece se eu não for?

Althea sustentou o olhar. Por um breve instante, uma tristeza antiga atravessou seus olhos dourados.

— O Véu não é gentil com quem o ignora. Se você ficar, vai se tornar uma das sombras que acabou de ver. Uma lembrança de alguém que sentiu demais e nunca aprendeu para onde direcionar isso.

Arin respirou fundo. O ar metálico da fenda invadiu seus pulmões, frio e vibrante. Sem dizer mais nada, deu um passo à frente e atravessou.