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Chapter 4 - ARCO 2 : A Queda - Edição #3: O Cativeiro. Pt.2

Página 16 - Arca de Noé Profana

Quarto de hospital.

Onde as feridas do corpo são ofuscadas pela urgência da verdade.

Vanessa estava sentada na cama, a perna engessada, mas seus olhos brilhavam com a adrenalina de uma repórter que tinha a maior história de sua vida nas mãos.

Ela gesticulava com empolgação enquanto contava tudo para Ivan e Gabi, que a ouviam atentamente.

— Gente, o buraco é muito mais embaixo!

— O bagulho é de filme de terror, tá ligado?

— É coisa de cientista maluco com orçamento infinito!

As imagens voltavam à sua mente como flashes.

— O cara tem uma Arca de Noé do inferno!

— Onça, cobra, jacaré... tudo preso pra virar suco genético!

A galeria de animais presos em jaulas de alta tecnologia. A preguiça exausta, enquanto o líquido dourado e brilhante, o "Gênesis", era extraído dela.

— O esquema é bizarro:

— Ele injeta o "Vermelho" nas preguiças, elas viram monstros, e ele extrai o "Dourado", o tal Gênesis.

— E tem mais! No subsolo... tem macas. Corpos.

— O nome da desgraça é "EXUS". É fábrica de gente, Ivan!

O laboratório secreto no subsolo. As macas enfileiradas. Os corpos cobertos. Magnus apertando a mão de um político, selando um acordo.

— E o mais importante, Ivan: tudo isso é bancado pelo Grupo Magnus, com certeza com a bênção e o dinheiro do governo!

Vanessa terminou seu relato, ofegante e cheia de expectativa.

Gabi estava de boca aberta, chocada.

Ivan, no entanto, tinha uma expressão séria, pensativa.

Ele olhou primeiro para Gabi e depois para Vanessa.

O tom dele era o de um empresário paulista, pragmático e direto, quebrando a euforia da repórter.

— Vanessa... listen to me.

— O que você tem aí é dinamite pura. É Prêmio Pulitzer, capa da Time.

Ele se inclinou um pouco para a frente, o olhar duro e realista.

— Mas juridicamente? É nada.

— Sem o vídeo, sem o frasco... é só uma teoria da conspiração de uma paciente medicada.

— Sem evidence, sem pauta. Entendeu?

Página 17 - Bolso do Anjo

Vanessa encarou Ivan.

A expressão de decepção no rosto dele a atingiu com força.

Mas, de repente, seus olhos se arregalaram com uma lembrança súbita.

— Espera...

— Eu não perdi.

— Eu passei a bola.

A memória voltou, nítida: sua mão fraca e ensanguentada, deslizando a cápsula dourada para dentro do bolso da calça de JC, que não percebera nada.

De volta ao presente, o rosto de Vanessa se contorceu em um novo tipo de pânico.

Esperança e desespero se misturaram.

— Puta merda! O "Anjo"!

— O garoto da praia... O Soro Gênesis tá no bolso dele!

Ivan e Gabi se entreolharam, surpresos e confusos, e depois se viraram para Vanessa.

—  Quem é o target, Vanessa? Nome? RG? — perguntou Ivan.

— Quem é ele, amiga? — completou Gabi.

Vanessa parecia pequena, sem jeito. A repórter investigativa sem a informação mais crucial de todas.

— Eu...

— Eu não sei quem ele é.

 

A animação no rosto de Gabi desapareceu, dando lugar a uma decepção prática, a voz cheia do papo reto da Baixada.

— Ih, esquece.

— Achar um "Boy" no Rio de Janeiro?

— É mais fácil achar virgem em baile funk.

— Ferrou, nega.

Ivan, o empresário paulista, pensou de forma lógica, tentando encontrar uma solução sistêmica.

— Wait a minute. O protocolo da UPA exige registro.

— Ele fez o check-in, não fez? Tem que ter o ID no sistema.

Gabi soltou uma risada amarga, cheia de sarcasmo e da realidade de quem conhecia o sistema por dentro.

— Check-in?!

— Acorda, Alice! Aquilo é SUS, não é hotel cinco estrelas.

— Na hora do salseiro, ninguém pede CPF não, filho.

— Eu já revirei a papelada. O cara é um fantasma. Nada consta.

Os três ficaram em silêncio.

A esperança que surgira há poucos instantes se desfez completamente.

Vanessa encarou o nada, o rosto uma máscara de puro desespero.

O furo de sua vida estava perdido nas mãos de um fantasma.

"A prova do crime do século... perdida no bolso de um desconhecido qualquer."

Página 18 - Item Lendário

Loft do JC.

Onde o destino do mundo cabe na palma da mão, e ninguém percebe.

JC estava sentado no sofá, completamente absorto.

Em sua mão, ele segurava a cápsula dourada, girando-a e observando como ela brilhava sob a luz da sala.

Ao fundo, uma TV de tela grande estava ligada na Rede News.

Na tela, o âncora tinha uma expressão séria.

A manchete na parte inferior dizia:

"CHACINA NA ZONA PORTUÁRIA: ATIVISTAS SÃO EXECUTADOS".

— Tragédia no Porto!

— A Polícia Civil confirma: o que aconteceu no galpão não foi briga... foi execução sumária.

— Jovens ativistas massacrados sem chance de defesa.

JC ignorava completamente a TV.

Estava fascinado pela cápsula, segurando-a contra a luz, tentando entender o que era aquilo.

Pensamento do JC:

— Isso aqui parece item lendário de RPG...

— Ouro líquido? Droga sintética? Perfume caro?

— Como diabos isso veio parar no meu bolso?

Na tela, imagens da polícia no galpão dos ativistas.

 

Ao fundo, desfocado, JC se levantou, ainda olhando para a cápsula em sua mão.

Repórter (Fora de quadro):

— Sargento, o que a perícia encontrou no local?

Sargento da PM (Olhando pra câmera, boné enterrado na testa):

— Negativo para confronto, minha senhora.

— O que a gente tem aqui não é troca de tiro... é execução.

— Elementos entraram pra limpar. Tiro na cabeça, confere?

— Característica de grupo de extermínio. Profissional.

— Infelizmente, zero pista da autoria. Os caras são fantasmas.

Click.

JC apontou o controle remoto para a TV e apertou o botão de desligar. A tela ficou preta, silenciando a notícia que poderia conectar todos os pontos para ele.

Na porta de casa, JC guardou a cápsula com cuidado no bolso da calça, pegou a carteira e as chaves do carro de uma mesinha.

Sua expressão agora era de quem tinha um objetivo, uma missão.

Abriu a porta, pronto para sair.

- Bom... vida que segue.

— Bora pra rua.

— Beleza... Bora resolver umas paradas.

 

Página 19 - Exu Não É o Diabo

De volta a cela de contenção

Dr. Marcos estava do lado de fora da Contenção, observando Herika, que estava sentada no canto da cela.

O tom dele não era de um interrogador, mas de um professor iniciando uma palestra perturbadora.

- Diga-me, Herika...

— Qual é o seu nível de proficiência sobre a cosmogonia Iorubá?

Herika o encarou com um olhar afiado e debochado. A ativista "lacradora" assumiu a frente.

— Ah, pronto.

— Porque eu sou preta, eu sou a Wikipédia de Candomblé pra você?

— Me economiza desse racismo recreativo, Doutor.

— Vá ler um livro e para de me encher.

Dr. Marcos ignorou completamente a provocação.

Sua expressão não mudou.

Ele continuou sua preleção com uma frieza clínica.

— Irrelevante.

— Na mitologia iorubá, Exu é o mensageiro.

— Exu não é o diabo binário do cristianismo.

— Ele é o movimento. A entropia.

— O link dinâmico entre o Orun — o divino — e o Aiyê — a matéria.

— Exu é a sinapse do universo.

A expressão de Herika mudou.

A ativista deu lugar à cientista.

 

A curiosidade intelectual superou a raiva.

— Você fala como um babalorixá... mas veste jaleco.

— Desde quando a "ciência branca" respeita a mitologia africana?

— Você acredita nisso ou tá só me zoando?

A voz do Dr. Marcos continuou, calma e metodológica, enquanto uma imagem se formava na mente de Herika: dois mundos, Orun e Aiyê, conectados por uma figura energética e poderosa — Exu — servindo como ponte, como conduíte.

— Eu não tenho "fé", Herika. Eu tenho dados.

— Exu é uma metáfora perfeita para um vetor viral.

— Ele transporta informação. Ele quebra barreiras.

— Ele "abre os caminhos" celulares.

Herika estava de pé agora, mais próxima do vidro, a mente trabalhando, tentando entender a lógica por trás da loucura.

— Para de rodear, Doutor.

— Qual é a pauta?

 

Página 20 - Sutura da Loucura

O olhar do Dr. Marcos se intensificou, fixo em Herika.

— Entenda a metáfora, garota. A encruzilhada é o ponto crítico.

— É onde o sistema decide se estagna... ou se sofre uma mutação.

— Exu é o catalisador. É o gatilho da mudança.

A curiosidade de Herika se transformou em apreensão.

Ela viu a mudança no olhar dele — a frieza científica dando lugar a algo mais sombrio, mais fanático.

A voz dele continuou, agora carregada de uma paixão perturbadora.

— Por isso batizei minha obra-prima de "EXUS".

— Não é religião. É bioengenharia de trânsito.

— Eu criei a ponte.

Na mente de Herika, a imagem se formou: uma dupla hélice de DNA gigante e sombria.

Uma das fitas era composta por símbolos científicos — átomos, moléculas.

A outra, por símbolos místicos — pontos riscados, búzios.

E conectando as duas fitas, em vez das pontes de hidrogênio, os corpos de espécimes híbridos falhos, contorcidos em agonia, suas formas meio humanas, meio animais, em um display de puro horror.

No centro, o logo do projeto: "PROJETO EXUS".

 

 

Dr. Marcos abriu os braços em um gesto messiânico, o rosto iluminado por um entusiasmo maníaco.

— Uma sutura artificial... costurando o intelecto humano à selvageria pura dos superpredadores!

— O melhor dos dois mundos, fundidos na marra!

Seus olhos brilhavam com a luz da loucura e de uma divindade autoproclamada.

- O Projeto EXUS é o mediador... mas não se engane.

— Eu não sou o "mensageiro". Eu sou o Criador.

— Eu sou o "Design Inteligente".

— Eu sou a Evolução... cansada de esperar milhões de anos!Herika o encarou, aterrorizada.

Ela não estava mais olhando para um cientista. Estava olhando para um profeta louco.

A risada maléfica dele ecoou pela sala.

HAHAHAHAHAHAHA!

 

Página 21 - Visita Noturna

Mansão Magnus. Noite.

Onde até a luxúria obedece a uma agenda de poder.

A fachada da luxuosa mansão de Magnus brilhava na escuridão.

As luzes acesas refletiam como joias contra o mar.

Era uma imagem de poder e isolamento.

No hall de entrada, Magnus acabara de chegar.

Bibi o recebeu, deslumbrante em um babydoll de seda preta. Ela se pendurou no pescoço dele, a voz um sussurro carregado de desejo e do seu sotaque sutil.

— Chefinho...

— Hoje tu não me escapa, viu?

— Quero serviço completo. A noite toda.

Magnus sorriu, entrando no jogo dela.

— Calma, minha potranca.

— Deixa o papai tirar o cheiro da rua primeiro.

— Guarda essa energia aí..

Bibi correu em direção à escadaria, com um olhar provocante por cima do ombro.

— Não demora, Tigrão!

— Senão eu começo sem tu...

Magnus estava na porta de seu banheiro luxuoso quando Jonas, o mordomo, apareceu, discreto e profissional.

— Perdão, Doutor Mauro.

Magnus ficou visivelmente irritado com a interrupção.

— Porra, Jonas. Eu acabei de chegar.

— O que é?

Jonas com seu ar Britânico e irretocável.

— Visita, senhor. Está aguardando.

A irritação inicial de Magnus se transformou em surpresa, e então... em um estalo. Seus olhos se acenderam com uma compreensão e uma satisfação profunda.

Ele sabia exatamente quem era, e essa visita era mais importante que qualquer outra coisa.

— Visita... a uma hora dessas?

(Sorriso maligno)

— Ah... Entendi.

— Acomoda ele na biblioteca. E serve aquele Blue Label que eu guardo pros "especiais".

Magnus se prepara para descer a grande escadaria, de sua mansão luxuosa, vestindo um roupão de seda finíssimo.

Quando e interceptado por Bibi, em uma lingerie negra mais ousada quase transparente com uma voz manhosa e revoltada.

- Mas bah, Mauro! Tu vai descer?!

— Tô aqui prontinha, toda trabalhada no desejo, e tu vai me deixar na seca?

Magnus passou por ela, com um tapinha em seu bumbum.

— Negócios, minha rainha. Coisa rápida.

— Vai aquecendo os motores.

— O papai já sobe pra terminar o serviço.

 

 

Bibi ficou no alto da escada, de braços cruzados e com um bico emburrado, enquanto Magnus continuava seu caminho.

— Tu não me enrola, hein!

— Tô contando os minutos!

Magnus caminhou pelo corredor em direção a um par de portas duplas de madeira maciça — a biblioteca.

Parou em um mini-bar no caminho para se servir de um copo de uísque.

Sua expressão era de pura e vitoriosa antecipação.

Ele parou em frente às portas imponentes da biblioteca.

Sua mão estava na maçaneta.

O momento era silencioso, carregado com o peso do que estava prestes a ser revelado.

 

 

Página 22 - Cola Genética

Dentro da Contenção, Herika se levantou.

O horror em seu rosto deu lugar a uma confrontação direta.

Dr. Marcos a observava do outro lado do vidro, a excitação maníaca de antes se acalmando, dando lugar a uma frieza professoral.

— Então é isso, Doutor?

— Você sequestrou as preguiça pra brincar de Deus?

— É só isso que elas são pra você? Cobaias?

Dr. Marcos sorriu.

Um sorriso fino e condescendente.

Ele ergueu as mãos em um gesto de apresentação, como um mágico prestes a revelar seu grande truque.

— Tão limitada...

— As preguiças são só o buffer, querida.

— Elas são a cola. O estabilizador genético.

— O meu "Magnum Opus"... é outra coisa.

Em um movimento sincronizado, Fernando e Adriele surgiram das sombras atrás do doutor.

Estavam completamente recuperados, sem um arranhão.

Impecáveis.

Perfeitos.

 

Posicionaram-se ao lado de Marcos, como duas estátuas de guerra.

— Contemple a perfeição.

— Sem cicatrizes. Sem fadiga. Sem falhas.

— O Projeto EXUS... em carne e osso.

Um telão na parede da cela de Herika se acendeu, mostrando as imagens da galeria de predadores presos.

O horror voltou ao rosto de Herika, desta vez com a fúria da ativista.

— Meu Deus!

— Onças... Harpias... Jacarés?!

— O que você tá fazendo com esses bichos, seu doente?!

— Isso é crime ambiental! É tortura!

Dr. Marcos a ignorou e começou sua palestra, a voz calma e didática, o que a tornava ainda mais sinistra.

- O conceito inicial era elementar.

— Extração de DNA de predadores alfa.

— Hibridização com o genoma humano.

— Simples, elegante... e perigoso.

Herika sussurrou, chocada.

— Híbridos... Você criou monstros.

 

A voz dele continuou, metodológica.

— Monstros? Não. Eu criei super-humanos.

— Imagine um soldado com a visão noturna e a força de mordida de uma onca.

— O problema não é criar a força, Herika.

— O problema é controlar a besta interior.

— Como você doma o instinto territorial de um animal que mata pra viver?

Página 23 - Preço da Cura

O olhar do Dr. Marcos se suavizou por um instante fugaz.

Ele olhou para Adriele, e houve um lampejo de uma dor antiga.

— Você acha que eu sou um monstro...

— Mas eu comecei isso querendo salvar vidas, Herika.

— Eu só queria curar o incurável.

As memórias voltaram, tingidas de cores quentes, em tons de sépia.

Um Dr. Marcos mais jovem empurrando uma Adriele criança em um balanço de parquinho.

Ambos sorriam.

Depois, Adriele menina, lendo um livro de ciências no colo do pai, fascinada.

As cores mudaram. Ficaram frias, azuladas.

Adriele adolescente, pálida e doente, em uma cama de hospital, cercada por aparelhos.

Dr. Marcos, ao seu lado, chorava com a cabeça entre as mãos.

E então, a figura imponente de Mauro Magnus entrou no quarto do hospital.

Mauro Magnus (Jovem, mas já imponente):

— Eu posso salvar sua menina, Marcos.

— Mas tudo tem um preço.

— Você me dá sua mente... e eu te dou os recursos.

Ele estendeu a mão para o Dr. Marcos desolado.

Uma oferta. Um pacto com o diabo.

 

De volta ao presente, a frieza retornou ao rosto do Dr. Marcos.

— Mas a ciência não perdoa pressa.

— O projeto inicial foi... problemático..

A visão do passado se impôs, sombria e brutal.

Um laboratório antigo e mais sujo.

Uma cena de carnificina científica.

Em uma maca, uma cobaia humana convulsionava e morria, o corpo se contorcendo.

Em outra parte, um híbrido monstruoso e fora de controle era alvejado por seguranças.

Fracasso, dor e morte pavimentando o caminho do Projeto EXUS.

Dr. Marcos (Narração em off):

— O genoma humano rejeitava o enxerto animal.

— Reações anafiláticas violentas.

— Colapso de órgãos.

— Surto psicótico imediato.

Dr. Marcos em tom de decepção:

— Perdemos muitas cobaias.

— Corpos frágeis demais para o poder que tentamos injetar.

— Foi um banho de sangue necessário.

E aqui... a verdadeira origem da decepção de Mauro Magnus com PROJETO EXUS.

 

 

Página 24 - Homo Superior

Dentro da cela, Herika encarou o Dr. Marcos.

A ativista deu lugar à cientista intrigada.

A curiosidade, mesmo em meio ao horror, era inegável.

— Espera... "Soro"?

— Que coquetel é esse que você inventou?

Dr. Marcos exibindo seu intelecto com um plastrante:

— Não é um coquetel, é uma sinfonia genética.

— Isolamos os traços dominantes dos predadores. Força, velocidade, letalidade.

O tom professoral dele continuou.

Seus olhos brilharam com a arrogância de um homem que se via maior que a própria humanidade.

— Tentamos reescrever o código humano.

— Eu tentei forçar a mão de Deus... e criar o Homo Superior.

Herika Surpresa o questiona sobre a experiência.a

— Você está misturando DNA animal com humano... buscando o quê com isso?

O olhar de superioridade de Marcos vacilou por um instante, dando lugar a uma apreensão.

— Mas a natureza é teimosa.

— O soro rejeita corpos saudáveis. Ele mata o hospedeiro perfeito.

— Ironicamente... ele só funciona no erro.

Herika pressionou.

— Erro? Como assim, erros?

 

Marcos explicou, como se estivesse admitindo um erro em um artigo científico.

— Ele precisa de um organismo com falhas. Doenças genéticas, anomalias celulares.

— O soro não cria do zero. Ele "conserta" o que está quebrado.

Nos olhos de Herika, as peças se encaixaram.

— Doença rara...?

— Espera... Eu vi isso no jornal.

A história pública do doutor... a "falha" científica... a presença de Adriele.

A memória voltou: a tela de um tablet antigo, mostrando uma matéria da Rede News de anos atrás.

A manchete dizia: "A CIÊNCIA CONTRA O TEMPO: A FILHA DO GENETICISTA DR. MARCOS CRUZ LUTA PELA VIDA."

"Boa noite. A ciência, que tantas vezes oferece respostas... hoje enfrenta um silêncio.

— ...Dr. Marcos Cruz, gênio da genética, corre contra o relógio.

— Sua filha, Adriele, está em estado crítico devido a uma patologia sanguínea desconhecida.

O maior especialista em genética do país... agora corre contra o tempo para salvar a própria filha..."

 

Herika o encarou, a acusação e o horror em sua voz.

— Você... Aquele caso da TV...

— A sua filha tinha uma doença terminal.

— (Olhando para Adriele)

— É ela, não é?

— Você usou a própria filha como cobaia?!

Dr. Marcos não respondeu.

Ele apenas virou o rosto lentamente e olhou para Adriele, que observava a cena, impassível.

A resposta estava no olhar.

Dr. Marcos (Olhando para Adriele com frieza):

— Eu não tinha escolha.

— Era isso ou o caixão.

— Sim. Ela é a minha Adriele.

E então, uma outra memória invadiu a mente de Herika. Cores frias, devastadoras.

Ela mesma, aos 18 anos, de pé ao lado de uma cama de hospital, onde alguém estava deitado.

O Dr. Marcos estava na sua frente, dando a notícia com uma frieza profissional.

"Infelizmente, não há mais nada a se fazer. Sinto muito."

 

Página 25 - Adoração Cega

De volta ao presente, o rosto de Herika se contorceu em uma fúria justa.

A cientista deu lugar à humanista horrorizada.

Ela bateu com os punhos no vidro da cela.

— SEU DOENTE!

— PSICOPATA!

— Você não salvou ninguém!

— Você usou a sua filha terminal pra testar essa merda!

— Que tipo de pai faz isso?!

Dr. Marcos a encarou.

Não havia um pingo de remorso. Apenas uma frieza monstruosa, a lógica de um homem que se colocara acima de qualquer moralidade.

— O tipo de pai que não aceita a morte como resposta.

— A medicina tradicional condenou a Adriele.

— Eu a reescrevi.

— Ela estaria morta se não fosse por mim. Agora... ela é eterna.

Adriele não parecia uma vítima.

Ela olhava para o pai com uma expressão de pura admiração e amor.

Um ronronar baixo e afetuoso escapou de seus lábios. Ela via o ato dele não como uma monstruosidade, mas como um sacrifício de um deus.

Purrrrrr...

 

Adriele (Olhando para o pai com adoração cega):

— Ele me deu uma segunda chance,

— Uma chance melhor.

— (Roçando a cabeça no ombro do pai)

— Purrrrrr...

Herika, horrorizada, estava do lado de dentro do vidro.

Dr. Marcos, um pilar de frieza científica, e Adriele, sua criação devota, estavam do lado de fora.

O abismo moral entre eles era absoluto.

 

 

Página 26 - Caça ao Fantasma na Cidade Grande

Anoitece na cidade e o clima não dos melhores.

A caminho da Rede News. Onde a caçada por uma história se transforma na caçada por um fantasma.

Um Ônix vermelho atravessava o trânsito da Zona Oeste do Rio.

Ao fundo, o prédio espelhado da Rede News.

A noite fria e pesada, combinando perfeitamente com o clima dentro do carro.

Ivan dirigia, sério e focado.

Gabi estava no banco do carona, pensativa.

No banco de trás, Vanessa tinha a perna engessada esticada, o olhar perdido na paisagem, a expressão totalmente desanimada.

Ela suspirou, a voz carregada de frustração.

— Que beleza... Aleijada e sem pauta.

— E aí? Zero ideias?

— Ninguém tem uma luz no fim desse túnel?

Ivan falou com o pragmatismo de um empresário paulista, olhando para Vanessa pelo retrovisor.

— Vanessa, sejamos práticos.

— Sem foto, sem nome, sem B.O.... não temos nada.

— É procurar agulha no palheiro sem saber se a agulha existe.

— Estamos rodando em falso.

De repente, Gabi estalou os dedos com um som alto.

Seus olhos se arregalaram com uma súbita epifania.

 

A sagacidade da "cria da Baixada" em ação.

— Puta que pariu!

— Caraca, eu sou muito burra!

— Como é que eu não liguei os pontos antes?!

Vanessa se inclinou para a frente, um pingo de esperança em seu rosto.

— O que foi, criatura?!

— Fala logo! Desembucha!

Gabi tinha um sorriso misterioso e confiante nos lábios. Ela estava saboreando o momento.

— Calma, "Monalisa de Gesso".

— Deixa a gente chegar na redação.

— Vou acionar uns contatos do submundo.

— Só confia na mãe aqui.

Ivan a olhou pelo retrovisor, intrigado.

Vanessa a encarou, a testa franzida, uma mistura de esperança e desconfiança.

A "pulga atrás da orelha" era visível em sua expressão.

Ivan (Olhando pelo retrovisor):

— Gabi, se for esquema ilegal, me avisa que eu já preparo o habeas corpus.

Gabi:

— Relaxa, chefinho. É tudo na base da amizade.

 

 

Página 27 - Recursos Humanos o Intelecto é o Alvo

Dentro da Contenção, Herika encarou o Dr. Marcos através do vidro.

O pânico deu lugar a uma pergunta fria e direta.

— Vamos pular os joguinhos.

— Qual é a minha função aqui?

— O que você quer de mim?

Dr. Marcos a olhou com uma expressão serena, quase afetuosa, o que a tornava ainda mais aterrorizante.

— O acaso é generoso, Herika.

— Você caiu no meu colo como um presente.

— E eu sou um homem que detesta desperdiçar recursos.

O rosto de Herika se contorceu em horror, imaginando o pior.

— Recursos...?

— Você vai me injetar aquela porcaria?

— Vai me transformar numa daquelas... coisas?

Dr. Marcos soltou uma risada baixa, condescendente.

— Te transformar em híbrido?

— Por favor... que desperdício de massa cinzenta.

— Eu não quero seu corpo, querida. Seu corpo é comum.

— Eu tenho planos mais... executivos para o seu intelecto.

 

 

Ele gesticulou, e o telão na cela de Herika se acendeu, mostrando uma visão de cortar o coração: a área de contenção das preguiças.

Os animais estavam magros, exaustos, quase sem vida em suas jaulas.

O lado ativista de Herika explodiu em fúria.

Ela correu e esmurrou o vidro da cela, o rosto banhado em lágrimas de raiva e impotência.

— Não...

— Olha o estado delas!

Herika (Socando o vidro, chorando de raiva):

— SEU FILHO DA PUTA!

— Você tá matando elas de fome?!

— SÁDICO! DOENTE!

Dr. Marcos observou a explosão dela sem esboçar reação.

Nesse momento Fernando a muralha, entrega ao doutro uma pasta com o carimbo: CONFIDENCIAL.

Com uma calma entediada, abriu o documento que fora entregue por seu Monstro Maior.

Dentro, a foto de Herika em um protesto e o título de um dossiê sobre ela.

Dr. Marcos leu o arquivo com um tom de falso interesse.

— "Ativista dos direitos dos animais"...

Ele a olhou com um sorriso de escárnio.

— ...uma defensora apaixonada, pelo que vejo aqui.

 

 

 

 

Herika parou de gritar.

Encarou-o, a respiração ofegante, a fúria dando lugar a uma apreensão gelada.

Ela não fazia ideia de onde ele queria chegar, e isso a aterrorizava.

Dr. Marcos Olhando para ela por cima dos óculos (continuou, tom sarcástico):

— Tão apaixonada.

— Tão previsível.

— Vejo que temos a pessoa certa para o cargo.

 

Página 28 - A verdadeira Face

Dr. Marcos folheou o dossiê de Herika.

Parou em uma página e seu rosto se iluminou com um sarcasmo teatral, como se tivesse encontrado um detalhe suculento e inesperado.

Dr. Marcos (Sobrancelha arqueada):

— Ora, ora...

— Que omissão interessante no seu discurso, Herika.

— Pensei que fosse só uma miçangueira de humanas.

Herika ficou desconfiada e assustada.

— O que é isso?

— Do que você tá falando?

O sorriso dele se alargou.

— "Ativista" é só o que você é agora, não é? Porque a sua ficha aqui conta uma história bem diferente...

— "Doutorado em Biologia Evolutiva pela UFRJ..."

— "Tese sobre predação em ecossistemas fechados..."

- Especialista em Biociência Animal.

— Muito prazer, Doutora Rodrigues.

— Estamos entre pares, afinal.

O choque foi total.

A palavra "Doutora" a atingiu em cheio.

A memória do rosto de Magnus voltou, dizendo a ela sobre os informantes.

Os informantes... eles sabem...

 

 

Herika (Pensamento):

— Merda... Eles levantaram a capivara toda.

— Eles não querem a militante. Eles querem a técnica.

Herika o encarou. O horror da compreensão começou a se formar em seu rosto.

A pergunta dela agora não era de desafio, mas de puro pavor.

- Pra que isso?

— O que vocês querem que eu faça?

Dr. Marcos estava no centro, olhando para a cela de Herika.

Ao seu lado, como duas gárgulas, Adriele e Fernando surgiram, encarando-a também.

Dentro da cela, Herika era uma figura pequena, encurralada, olhando para seus três captores.

A voz do doutor foi a sentença final, a revelação que quebrou o espírito dela.

— Pare de fingir que é apenas uma "protetora", minha cara.

— Você é o elo perdido.

— Você é a mente que vai estabilizar o caos.

— Bem-vinda à equipe do Projeto GÊNESIS.

Página 29 - Cinza no Copo, Fogo no Olhar

Rede News. Onde as batalhas continuam, mesmo depois que as câmeras desligam.

Um escritório moderno na sede da Rede News.

Vanessa estava de pé, apoiada em uma muleta, com a perna engessada.

Olhava pela janela panorâmica, pensativa, com um cigarro entre os dedos.

— Que fase, Vanessa...

— De âncora estrela pra peso de papel de gesso.

— Se eu não achar essa pauta, eu tô na rua.

A fumaça subia lentamente.

Ivan entrou na sala sem que ela percebesse.

Tinha um sorriso brincalhão no rosto.

— Com licença, moça...

— Tem espaço aí pra eu deixar um autógrafo nesse gesso?

Vanessa se assustou, virando-se para ele com uma expressão de pura irritação.

— Puta que pariu, Ivan!

— Vê se cresce. A gente tá numa redação ou no recreio?

O sorriso de Ivan desapareceu.

— Calma, estressadinha.

— Só vim trazer um pouco de paz.

Vanessa suspirou, apagando o cigarro.

— Foi mal, Ivan. Desculpa. Não tô num bom dia.

 

Ivan se aproximou, o tom de voz mudando para algo mais íntimo e afetuoso. Colocou a mão no ombro dela.

— (Baixando o tom, voz rouca)

— Você tá muito tensa, Ruiva.

— Eu conheço um jeito ótimo de soltar essa musculatura...

Vanessa se afastou do toque dele, arredia.

— Ivan, não começa...

— Hoje não é dia.

Ele não desistiu. Ivan se aproximou mais, o rosto a centímetros do dela, pronto para beijá-la.

— Todo dia é dia...

— Vem cá...

SLAM!

A porta do escritório foi escancarada com um estrondo.

Gabi invadiu a sala, eufórica, segurando uma folha de papel como se fosse um troféu. A expressão dela era de pura vitória.

— A MÃE TÁ ON!

— ACHEI A PORRA DO FIO DA MEADA!

— RESPEITA A MINHA HISTÓRIA!

 

Ivan e Vanessa, que estavam prestes a se beijar, se separaram bruscamente, ambos completamente sem graça.

O clima foi totalmente quebrado.

Ivan (Arrumando a gravata, tosse falsa):

— Cof... Cof...

— Ótimo timing, Gabriele.

Vanessa (Vermelha):

— Oi, Gabi...

— Que... bom.

 

 

 

Página 30 - O Fio da Meada (Hora Extra)

Gabi parou na porta, a mão na boca em um gesto de "ops".

Olhou para Ivan e Vanessa, congelados no quase-beijo, com um ar de quem sabia que estragara o momento.

— Iiiiih... Vacilo meu.

— Atrapalhei a "reunião de pauta" do casal?

As reações foram opostas.

Vanessa, aliviada, se afastou de Ivan.

— Não!

Ivan, frustrado, fuzilou Gabi com o olhar.

— Sim.

Ivan se recompôs, ajeitando a gola da camisa.

Virou-se para Gabi com a voz seca de um chefe paulista contrariado.

— Gabriele, pelo amor de Deus.

— O que justifica essa invasão? Espero que seja a cura do câncer.

Gabi ignorou Ivan e foi direto até Vanessa.

Gabi (Sorrindo):

— Melhor que a cura, chefinho.

— Segura esse furo.

Com um sorriso vitorioso, colocou uma folha de papel na frente da amiga.

Gabi (mostrando o papel pra Vanessa):

— Olha isso aqui, nega.

— Diz pra mãe se esse não é o teu "príncipe encantado".

 

Na folha, uma foto granulada de um rosto masculino, claramente um print de uma câmera de segurança.

A frustração no rosto de Vanessa se desfez, dando lugar a uma euforia pura e radiante.

— MEU DEUS!

— É ELE!

— Eu nunca ia esquecer essa cara!

Ivan observou a alegria de Vanessa com uma clara pontada de ciúme.

— Hmpf...

— Grande coisa. Cara de playboy.

Vanessa segurou o papel como um tesouro e olhou para Gabi com admiração.

— Minha gordinha...

— Tu é um gênio!

— Como tu descolou isso? Na moral!

Gabi começou a contar, saboreando cada detalhe.

— O segredo é o método, amor.

— Primeiro: Infiltração tática.

A imagem se formou: Gabi, disfarçada com um uniforme de recepcionista, atendendo um paciente em uma UPA lotada.

— Segundo: Mineração de dados.

Gabi, à noite, usando a lanterna do celular para fuçar arquivos em uma sala escura.

— Terceiro: Engenharia social avançada... se é que me entende.

Gabi rindo e flertando com um segurança da UPA durante o café. Ele estava claramente encantado.

— E quarto: Extração de informações privilegiadas.

Visual: Exterior do Motel "Eros" de dia. O Uno Mille do segurança está saindo.

Gabi está no banco do carona, descabelada, maquiagem borrada, arrumando a blusa e com um sorriso de extrema satisfação no rosto, fazendo um sinal de "OK" com a mão.

O segurança parece exausto, mas feliz.

Gabi (Voltando ao presente, se abanando com a foto):

— E voilá!

— Temos a foto do boy.

— E a mãe aqui tá de pele boa, relaxada...

Vanessa e Ivan a encararam, chocados e impressionados.

Ivan (Boca aberta, escandalizado):

— Gabriele...

— Você... você dormiu com o segurança da UPA?!Pelo amor de Deus, isso é antiético!

Gabi (Piscando e mordendo o lábio, maliciosa):

— Antiético seria desperdiçar aquele homem, Ivan!

— O negão tinha um metro e noventa e braço de caminhoneiro! Tu acha que eu ia perder a viagem?

— Eu só uni o útil ao muito agradável.

— O jornalismo foi só a desculpa, bebê. O resto foi hora extra!

 

 

 

 

 

 

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