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Chapter 3 - ARCO 2 : A Queda - Edição #3: O Cativeiro. pt1

No Arco 1 – Edição 2, o que começou como um furo de reportagem virou campo de batalha. Uma repórter ruiva quase morreu para tirar a verdade de dentro de um laboratório que transforma preguiças em monstros e vidas humanas em estatística. Na mesma noite, um "anjo" improvável arrancou um corpo da beira da morte e saiu da praia carregando, sem saber, algo muito maior que gratidão.​

O Arco 2 – Edição 3 volta alguns passos e acende a luz onde antes só havia fumaça. É o prequel do desastre: revela como um bilionário aprende a apagar cenas de crime como quem apaga um stories, como uma líder de protesto vira peça de laboratório, e como a palavra EXUS deixa de ser lenda sussurrada para se tornar protocolo. Aqui, o tabuleiro é montado em silêncio. As peças que você viu em movimento começam, enfim, a mostrar de onde vieram.

Arco 2: A Queda

 

Edição #3: O Cativeiro.

Página 1 - Espuma no Asfalto

Narrador

("No Rio de Janeiro, a lei da gravidade é a única que não se suborna."

"Para todo o resto... existe o 'custo Brasil'. Cenas de crime não são isoladas; são higienizadas.)

O sangue no asfalto vira espuma de sabão antes mesmo de secar.

"A visão aérea da avenida da praia revelava o caos recém-controlado.

Um helicóptero preto, sem insígnias ou qualquer identificação, pairava baixo sobre a cena do acidente.

Adriele ajudava Magnus e Fernando — ambos feridos, mas conscientes — a embarcar na aeronave.

Lá embaixo, na rua, um discreto caminhão de limpeza já começava a isolar a área, apagando os vestígios dos destroços da van e do Mustang como se nunca tivessem existido.

Enquanto isso, longe dali, no laboratório principal, Dr. Marcos estava de costas, diante de uma parede inteira de monitores.

As telas exibiam as imagens caóticas da invasão dos ativistas: portas arrombadas, equipamentos destruídos, arquivos violados.

Ele analisava os estragos em silêncio, o rosto uma máscara de fúria contida.

 

Pensamento (Dr. Marcos):

"Entropia pura. O comportamento de manada dos medíocres..."

"Construímos templos de evolução para serem profanados por... macacos com pedaços de pau."

Então, um som pesado e sibilante cortou o ar.

Vvvmmmmmmmp... (Portas hidráulicas)

As portas de aço do laboratório se abriram lentamente. Dr. Marcos se virou.

E eles entraram.

Mauro Magnus estava parado no centro da entrada.

Seu ternoHermès caríssimo estava desalinhado alguns ragos e arranhões, o cabelo bagunçado alguns hematomas e escoriações leves devido acidente, mas sua imponência permanecia inabalável

Ele irradiava poder como uma força gravitacional.

À sua direita, Fernando, sem camisa, o corpo coberto de hematomas e escoriações, vários machucados e muitos arranhões, mantinha os óculos escuros no lugar.

Parecia uma força da natureza ferida, mas não domada.

À sua esquerda, Adriele, com as roupas rasgadas e arranhões no rosto, tinha o olhar de uma predadora selvagem.

O trio formava uma trindade sombria que viera para julgar e executar.

Dr. Marcos, o monstro da ciência.

Mauro Magnus, o empresário inescrupuloso.

Os dois ficaram frente a frente no centro do laboratório. O ar entre eles era pesado, elétrico.

Magnus exibiu um sorriso que não alcançava os olhos. Era pura formalidade, cobrindo uma fúria vulcânica.

— Meu caro Doutor Marcos...

— Vejo que decidiu redecorar o ambiente.

— O estilo "zona de guerra" é a nova tendência científica?

Dr. Marcos respirou fundo. Ele sabia que a tempestade havia chegado.

— Senhor Magnus. Perdoe a... desordem entrópica.

— Tivemos variáveis externas não calculadas. O caos urbano bateu à nossa porta.

Os dois estenderam as mãos.

Não foi um aperto amigável.

Foi um gesto de poder, um contrato sendo reafirmado em meio à crise.

Narrador

("Mãos sujas de sangue não se lavam. Elas apenas se cumprimentam.")

Página 2 - Pacto de Sangue

Magnus soltou a mão do doutor e ajeitou o próprio terno, assumindo uma postura de tranquilidade calculada.

Era a calma de um predador antes do ataque.

— Vamos pular as amenidades, Doutor.

— Como está o meu investimento?

— O Gênesis está pronto ou eu joguei dinheiro na latrina financiando suas cobaias peludas?

O rosto do Dr. Marcos se iluminou com a paixão de um cientista. Ele apontou para um dos monitores, animado para mostrar seu progresso.

— Estamos na iminência da perfeição, Senhor Magnus!

— A estabilização nos bradipodídeos é... sublime.

— O senhor precisa ver a telemetria neural! É poesia genética pura!

A resposta não veio em palavras.

Veio em violência.

Magnus se lançou sobre o Dr. Marcos, agarrando-o pelo colarinho do jaleco e erguendo-o do chão como se não pesasse nada.

A máscara de tranquilidade se desfez por completo, revelando uma fúria selvagem.

O rosto de Magnus ficou a centímetros do rosto apavorado do doutor, a veia do pescoço saltando.

— DANE-SE A TELEMETRIA!

— EU NÃO TE PAGO PRA SER POETA, SEU NERD DE JALECO!

— EU TE PAGO PRA ME ENTREGAR UMA ARMA, NÃO DESCULPAS!

Ao fundo, Fernando e Adriele observavam a cena, imóveis, sem esboçar qualquer reação.

Dr. Marcos, suspenso no ar, gaguejou, tentando apaziguar a fúria de seu mestre.

— S-senhor... calma... Foi apenas um contratempo...

— Como no... no Projeto EXUS... aprendemos com os erros...

Magnus o jogou de lado.

Marcos caiu de forma desajeitada contra uma bancada.

Magnus se virou de costas para ele, o peito subindo e descendo de raiva, e se dirigiu a Fernando e Adriele.

— Não ouse pronunciar esse nome na minha presença.

— O EXUS foi um sumidouro de dinheiro! Um fiasco abominável!

— Milhões queimados naquela... aberração.

O Dr. Marcos se reerguia, humilhado, o corpo ainda tremendo do impacto.

A palavra "EXUS" ecoava na sala, pesada como uma lápide.

 

EXUS. O nome do fracasso. A primeira de muitas revelações enterradas sob aquele laboratório.

Narrador

(EXUS. Um nome que cheira a enxofre e dinheiro queimado."

"Alguns erros científicos a gente publica... outros, a gente enterra.")

 

Página 3 - Dez Dígitos de Ódio

Dr. Marcos ajeitou o jaleco, tentando recompor a dignidade.

Sua voz tremia quando falou, mas ainda era a voz de um cientista tentando justificar um experimento que deu errado.

Dr. Marcos (Voz trêmula):

— Foi uma... divergência estatística. Apenas isso.

Magnus soltou uma risada curta, seca, cheia de desprezo.

— Divergência estatística?

— Sua "divergência" fez o Ministério da Defesa rasgar um cheque de dez dígitos na minha cara, Doutor.

— Você sabe quantos zeros tem num bilhão? Ou precisa de uma calculadora?

Dr. Marcos recuou um passo, tentando desesperadamente se defender.

— Mas, senhor Magnus, os protocolos... nós aprendemos muito com as falhas do projeto EXUS!

Magnus parou.

Virou-se lentamente para o doutor.

A raiva se foi, substituída por uma calma que era ainda mais aterrorizante.

Ele falou como se estivesse ponderando uma questão filosófica.

— Sabe, Marcos... estou num dilema executivo.

— Eu estourei o seu cérebro agora e mancho meu terno italiano... ou eu te asfixio com a gravata e economizo a bala?

 

 

A calma se quebrou.

Magnus explodiu em fúria novamente, o rosto a centímetros do de Marcos.

— VOCÊ ACHA QUE EU TÔ BRINCANDO DE BANCO IMOBILIÁRIO?! PARE DE ME DAR DESCULPAS!

Ao fundo, Fernando e Adriele trocaram um olhar rápido e apreensivo.

Pela primeira vez, a briga dos seus mestres os deixava visivelmente tensos.

Magnus se afastou de Marcos e apontou com desprezo para seus dois guerreiros feridos.

— O Governo Federal quer resultados, e o que eu tenho?

— Olha pra isso!

— O brutamontes tá parecendo carne moída... e a gatinha virou um felino sarnento de beco!

— Produtos de segunda mão!

Dr. Marcos respirou fundo, tentando retomar o controle da situação. Assumiu sua postura de cientista.

Dr. Marcos (Pragmático):

— Vou iniciar o protocolo de regeneração celular. Eles ficarão novos.

Magnus soltou um bufo de irritação e ajeitou o seu terno amassado e destruido, virando as costas para todos.

— Ótimo. Dê a ração das crianças.

— Eu vou embora. Esse lugar cheira a fracasso... e meu terno está imundo.

 

Página 4 - Oficina dos Caídos

Dr. Marcos guiou Fernando e Adriele, ambos feridos, para a Sub-Seção C3.

A oficina dos anjos caídos de Magnus.

Eles caminharam em direção às duas macas vazias, passando pelas outras seis que continuavam cobertas por lençóis, como túmulos silenciosos.

Fernando e Adriele se deitaram nas macas.

Era uma rotina, um procedimento familiar para eles. Dr. Marcos, com uma calma clínica, preparou um sistema de injeção automática, conectando tubos com o familiar soro vermelho em bolsas de IV.

Eles faziam parte do Projeto EXUS.

A busca doentia pela criação de humanos híbridos, usando como base o código genético dos maiores predadores do Brasil para forjar o soldado perfeito.

Uma hélice de DNA humano fundida com os instintos e capacidades dos animais mais letais da fauna brasileira: Onças, jacarés, Serpentes peçonhentas, gavião-real, Ariranhas, Escorpiões, aranhas e muitos outros.

Fernando: No sangue dele: a blindagem do Jacaré-Açu, a força da Onça, o sonar do Morcego e visão de uma serpente. Um tanque de guerra biológico.".

Adriele: no seu sangue a agilidade da Jaguatirica, a audição do Lobo-Guará e pericia e faro do gato-do-mato. A assassina perfeita."

Mas o soro era imperfeito. Instável.

 

 

 

Dr. Marcos estava prestes a iniciar o procedimento em Adriele quando a mão dela, fraca, se levantou e segurou a dele.

Ela o olhou. E pela primeira vez, havia uma ternura, uma vulnerabilidade que nunca havíamos visto antes.

Sua voz era a de uma filha buscando a aprovação do pai.

— Pai...

— Me perdoa?

— Eu não queria falhar com o senhor... Eu fui uma menina má?

Dr. Marcos olhou para a filha.

Mas não havia amor em seus olhos.

Apenas uma frieza distante, uma indiferença quase divina. A resposta dele foi clínica, não paternal.

— Silêncio, Adriele. O cortisol atrapalha a absorção.

— Durma.

— Quando acordar, sua fisiologia estará reajustada.

Ele se afastou.

Adriele e Fernando fecharam os olhos e adormeceram, enquanto o soro vermelho começava a fluir para suas veias.

O "pai" virou as costas para a "regeneração" de sua filha e de sua arma, já pensando em seu próximo experimento.

Narrador

("Sub-Seção C3. Onde a biologia pede licença e a ética sai pela porta dos fundos."

"Projeto EXUS: A tentativa humana de roubar o trono da cadeia alimentar.")

Página 5 - Presente Envenenado

Magnus se aproximou do Dr. Marcos na Sub-Seção C3.

Estava impecável novamente, vestindo um terno caro e perfeitamente alinhado.

Olhou para as macas de Adriele e Fernando com um ar de desdém e ironia.

— E então, Doutor?

— Já terminou de remendar seus bonecos de carne?

— Espero que sim. Meu tempo é dinheiro.

Dr. Marcos se virou, o rosto impassível, ignorando a provocação.

— Esqueça o reparo. O senhor precisa ver a nova aquisição.

— Acompanhe-me.

Em outro lugar, nas sombras, os olhos de Herika se abriram, assustados e desorientados.

- O que é isso... onde estou...?

Ela estava no chão de um lugar escuro.

Percebeu que estava vestindo apenas roupas íntimas e instintivamente se abraçou, sentindo-se exposta e vulnerável.

O pânico começou a tomar conta.

— ALÔ?!

— TEM ALGUÉM AÍ?!

— GALERA, GENTE, PESSOAL!

— QUE MERDA DE LUGAR É ESSE?!Fzzzzzzt!

Com um zumbido alto, luzes brancas e ofuscantes inundaram o local.

Herika colocou o braço na frente do rosto para se proteger da claridade súbita.

Quando a visão se ajustou, a verdade se revelou.

Ela estava no centro da Contenção — a mesma prisão de vidro de alta tecnologia onde Vanessa estivera. Do lado de fora, na penumbra da sala de observação, as silhuetas de Magnus e Dr. Marcos a observavam como se ela fosse um animal em um zoológico.

Do outro lado do vidro, Magnus exibia um sorriso largo, sádico e infantil, como uma criança que acabara de ganhar um brinquedo novo e cruel.

Sua voz ecoou na cela através de um alto-falante.

— Ora, ora...

— Olha só o que o gato arrastou pra dentro de casa.

Herika olhou para cima, em direção à voz. O terror e o reconhecimento tomaram conta de sua expressão.

— Uma "guerrilheira" de merda... suja, acuada e na minha jaula.

— A ironia é deliciosa, não acha?

A risada diabólica de Magnus ecoou pela cela.

— Bem-vinda à cadeia alimentar, querida.

— HAHAHAHAHAHAHA!

Narrador

(Herika cobrindo o corpo, tentando manter a dignidade, mas tremendo de ódio e medo).

 

 

 

 

 

 

Página 6 - Som do Silenciador

Algumas semanas depois...

O galpão dos ativistas havia mudado.

A energia vibrante de antes se fora, substituída por uma atmosfera pesada, de apreensão.

Um pequeno grupo estava reunido, os rostos sombrios.

Um dos ativistas quebrou o silêncio, a preocupação dando lugar a uma raiva politizada.

— O silêncio tá ensurdecedor, família.

— A Herika virou estatística.

— O sistema mastigou e cuspiu. Nenhuma notícia. Nada.

Outro ativista estava sentado, desolado, mexendo no celular como se esperasse uma mensagem que nunca chegaria.

— E aí? O "papo reto" morreu?

— Ninguém sabe da Kika? Desde aquela treta na Magnus... ela evaporou, mano.

Um terceiro se levantou, a raiva misturada com a culpa em sua voz.

— A gente segurou o BO pra ela entrar...

— Ela entrou na cova dos leões sozinha.

— E leão não devolve a presa.

Os ativistas se olharam em silêncio.

A dor da perda e da incerteza pesava sobre eles.

Era um momento de luto e camaradagem.

E então...

 

 

KRA-BOOOOOOOOM!

(O clarão da explosão iluminando os rostos tristes, transformando tristeza em terror instantâneo).

Uma explosão ensurdecedora.

As portas de metal do galpão foram arrancadas das dobradiças e voaram para dentro, em meio a uma bola de fogo e estilhaços.

A luz da explosão projetou as sombras aterrorizadas dos ativistas na parede do fundo.

O horror absoluto invadiu o espaço.

Uma equipe de operações especiais, vestidos com uniformes táticos pretos, sem insígnias, e com os rostos cobertos por balaclavas, entrou no galpão.

Eles se moviam com uma eficiência fria e letal, armas com silenciadores em punho.

Pfft! Pfft! Pfft! Pfft! Pfft! Pfft!

Os tiros eram quase silenciosos, mas o impacto das balas nos corpos dos ativistas era devastador.

Não havia luta.

Apenas uma execução fria, metódica e total.

Um balé de morte e desespero.

A esperança morreu ali, em um banho de sangue.

Narrador

(

"Magnus não deixa pontas soltas."

"Ele queima o novelo inteiro."

"E assim termina a revolução."

"Não com um grito de liberdade... mas com o som abafado de um silenciador."

).

Página 7 - Teatro do Horror

Existem armas mais cruéis que balas.

Existem torturas mais profundas que a dor física.

Dentro da cela de Contenção, Herika estava de joelhos, o rosto pálido e banhado em lágrimas.

Sua imagem estava refletida no vidro à sua frente.

E no vidro, ela via também o que estava sendo exibido: um telão gigante, do outro lado da sala de observação, que acabara de mostrar a filmagem da chacina em seu galpão.

A última imagem na tela era a de um corpo de um amigo dela.

Do outro lado do vidro, na sala de observação escura, Mauro Magnus estava sentado confortavelmente em uma poltrona de couro, um copo de uísque na mão.

Ele observava o desespero de Herika com a satisfação fria de um espectador em um teatro.

Deleitava-se com a cena.

A boca de Herika se abriu em um grito quebrado, os olhos arregalados em negação e horror.

— SEU MONSTRO!!

— COMO?! COMO VOCÊ ACHOU ELES?!

— ELES NÃO TINHAM NADA A VER COM ISSO!!

Os rostos sorridentes de seus amigos invadiram sua mente. Momentos felizes, agora cobertos por manchas de sangue.

Meus amigos... meus irmãos de luta... todos... todos mortos...

Narrador

("A pior tortura não é a que rasga a pele."

"É a que mata sua esperança enquanto você assiste.")

Herika em seu desespero socando com toda a fúria sua cela de vidro em prantos confronta Mangus;

- Porque, porque?

Magnus deu um gole em seu uísque, saboreando a bebida e o momento.

Sua resposta foi calma, desdenhosa, a explicação mais simples e cruel possível.

— É simples, minha querida.

— Porque eu sou podre de rico.

— E o dinheiro compra olhos, ouvidos... e balas.

Ele soltou uma gargalhada.

Não era uma risada de alegria.

Era um som maligno, vazio, que ecoou pela cela de Herika, amplificado pelos alto-falantes.

— Você achou mesmo que podia brincar de esconde-esconde comigo?

— HAHAHAHAHA!

 

Página 8 - Fome Como Arma

Magnus se levantou e se aproximou do vidro da cela, olhando de cima para Herika, que ainda estava no chão.

O tom dele era de um cinismo professoral.

— Óh, doce ingenuidade...

— Você achou que seu "clube do livro" revolucionário era invisível?

— Eu monitoro o preço do café em Tóquio. Você acha que eu não monitoro um bando de desocupados no meu quintal?

Herika levantou o rosto, a confusão misturada à dor.

— Como assim...?

Magnus exibiu um sorriso.

Era o sorriso de um predador prestes a revelar o segredo de sua armadilha.

— A fome é uma ferramenta de gestão maravilhosa.

— É tão barato comprar lealdade nesse país...

— Um maço de dinheiro para o viciado... uma promessa de emprego para o desempregado...

— Saiu mais barato que o meu almoço.

O rosto de Herika se transformou. O horror deu lugar a uma compreensão ainda mais terrível.

Herika – Sussurrando

— Traidores...

— Você comprou a fome deles.

— Você transformou a necessidade em arma.

 

 

 

A verdade se revelou em toda sua crueldade.

Herika estava de joelhos dentro da cela, uma figura quebrada.

E na sua mente, as imagens começaram a se formar: três de seus "irmãos de luta"

— um rapaz pobre, um viciado, um sem-teto

— recebendo discretamente envelopes de dinheiro e promessas vazias de homens de terno.

A traição não vinha de fora.

Vinha de dentro.

A arma final para destruir sua alma.

 

 

 

 

 

Página 9 - Daltônico de Saldo

Magnus explodiu.

A fachada de calma se foi, e o verdadeiro monstro, o tirano, se revelou.

— ÓBVIO QUE EU SABIA!

— Você realmente acreditou na sua própria fantasia?

— Que uma... "negra suburbana", ativista de porta de fábrica... ia derrubar o meu império?

— EU SOU MAURO MAGNUS! EU SOU O SISTEMA!

Herika, mesmo quebrada, encontrou uma última fagulha de força.

Ela se levantou, apoiando-se no vidro, e cuspiu as palavras com todo o ódio que lhe restava.

— Você posa de "pai dos pobres" na TV...

— Mas é só um verme racista e nojento.

— Um monstro de terno.Magnus riu.

Um deboche genuíno.

A acusação não o atingiu; ela o divertiu.

— Racista? Eu? Por favor, que vulgar.

— Eu sou daltônico para cores... eu só enxergo saldos bancários.

— E o seu, minha querida... me dá náuseas.

(Sussurrou Herika, derrotada)

— Cretino...

 

 

 

 

Magnus se virou, como se estivesse perdendo o interesse.

E então deu a última facada, a revelação final que contextualizou tudo.

— E sobre a sua... "revolução"...

— Foi um excelente exercício de campo.

— Eu precisava testar a segurança perimetral... e vocês se voluntariaram.

Herika ficou paralisada.

A última fagulha de luta em seus olhos se apagou.

Ela não entendia.

A confusão era a última etapa antes do colapso total.

— Um... simulado?

— A gente morreu... pra você testar a cerca?

 

 

 

Página 10 - Olhos que Despertam

A escuridão começou a se dissipar.

A visão de Vanessa se abriu lentamente, como uma pálpebra pesada.

O teto não era o de uma UPA.

Era um teto branco, limpo, de um quarto particular.

Um suporte de soro IV estava ao lado.

- Onde... onde eu tô...?

Ela estava deitada em uma cama de hospital confortável.

Sua perna estava elevada e coberta por um gesso limpo.

Sentado em uma poltrona elegante perto da janela, olhando um tablet, estava Ivan Alencar.

Ele era estiloso, atlético, com óculos modernos e uma calma que parecia inabalável.

— Chefe...?

— Ivan?

— Cadê o caos da UPA...? Morri e fui pro céu?

Ivan levantou o olhar do tablet.

Seu rosto se suavizou com um alívio contido.

Ele falou com a calma e a precisão de um executivo, com um sotaque paulista polido e direto.

— Calma, Nessa. Take it easy.

— Você tá segura. Tirei você daquele açougue público.

— Estamos num hospital premium, convênio da Rede News. Fiz um upgrade no seu care.

— Só relaxa, meu bem. Tá tudo no budget da empresa.

Vanessa estava totalmente confusa, tentando conectar os pontos em sua memória fragmentada.

— Mas como...? A UPA... o acidente... como é que...?

Click.

O som da porta do quarto se abrindo interrompeu a fala dela. Ivan e Vanessa se viraram para a porta.

A porta se abriu, revelando a silhueta de uma mulher.

Antes que pudessem ver seu rosto claramente, ouviram sua voz animada e cheia de sarcasmo.

— IH, ALA!

— A Bela Adormecida resolveu acordar do coma!

— Já tava achando que ia ter que te beijar pra tu levantar, hein!

 

Página 11 - Lágrimas da Baixada

A porta do quarto se abriu de vez para revelar Gabi.

Ela era morena, plus-size, com um sorriso que iluminava o ambiente.

A energia dela era contagiante.

— E aí, gostosa?! Tá viva!

Vanessa abriu um sorriso de genuína surpresa e felicidade.

— GABI! Minha amiga!

Gabi correu para a cama e as duas se abraçaram com força, matando a saudade. Era um abraço de irmãs.

Quando se separaram, Gabi analisou Vanessa com um olhar que misturava carinho e a zoeira típica da Baixada Fluminense.

— A lataria amassou, mas o chassi tá bom, né não?

— Tu é vaso ruim, mulher! Não quebra fácil!

Vanessa riu.

— Qual foi a mágica, sua doida?

— Eu apaguei no inferno e acordei no paraíso.

— Como tu me achou naquele buraco?

- A última coisa que eu lembro era de uma UPA...

A expressão de Gabi ficou séria, mas com um toque de orgulho.

Ela falou o papo reto.

— Se não sou eu, tu virava saudade, nega.

— Eu tava lá no "infiltrado", fazendo aquela pauta do SUS.

— Quando vi tu la toda quebrada, já acionei o patrão no rádio.

Ivan, que observava a cena em silêncio, se aproximou para explicar.

Sua postura era de um chefe preocupado, a voz calma e paulistana.

— Serendipity, Vanessa. Pura sorte.

— A Gabi tava levantando dados sobre a precariedade da saúde.

— Quando ela me bipou, eu aprovei a transferência ASAP.

— Não deixo colaborador meu na mão.

Gabi piscou para Vanessa, o bom humor de volta.

— Resumindo: Salvei teu couro.

— Tá me devendo um açaí de um litro.

— Com leite ninho, paçoca e morango. Sem miséria, tá ouvindo?

Página 12 - Evaporados

O sorriso de Vanessa desapareceu.

Uma sombra de pânico e uma terrível lembrança voltaram ao seu rosto.

— Peraí...

— E o Juca? O Xande? A Malu?

— Vocês... encontraram eles?

Um silêncio pesado tomou conta do quarto.

Gabi e Ivan se entreolharam e depois desviaram o olhar, incapazes de encarar Vanessa.

A voz dela agora era um sussurro trêmulo.

— O que foi? O que aconteceu com eles?

respondeu Ivan, com a voz baixa e grave

— Nada, Vanessa.

— Zero.

Vanessa (Gritando):

— Como assim ZERO?!

— O Juca tava no volante! O carro virou sucata!

Gabi segurou a mão de Vanessa.

Sua voz, normalmente alegre, estava sombria.

— Amiga, o que o Ivan quis dizer... é isso mesmo.

— Amiga... escuta.

— A pista tá limpa. Um tapete.

— Não tem van, não tem sangue, não tem corpo.

— Pra polícia, eles evaporaram. Viraram fumaça.

 

 

 

Vanessa ficou incrédula, a voz subindo em desespero.

— DESAPARECIDOS?! ISSO É CAÔ!

— CAÔ! ISSO É CAÔ FURADO!

— Eu vi o Juca morrer! Eu vi o segurança esmagado!

— Tinha sangue pra todo lado, porra!

Gabi a encarou com uma tristeza profunda.

— Eles passaram o rodo, Nessa.

— Higienizaram tudo. Nem mancha de óleo ficou.

Vanessa explodiu.

Movida por ódio e dor, ela tentou se levantar da cama, arrancando o fio do soro do braço.

Seu rosto era uma máscara de pura vingança.

Gabi e Ivan a seguraram, tentando acalmá-la.

— FILHOS DA PUTA!

— ELES MATARAM E APAGARAM MEUS AMIGOS!

— EU VOU MATAR O MAGNUS! EU VOU DERRUBAR AQUELE IMPÉRIO!

— EU JURO PELA MINHA MÃE! EU JURO QUE VOU ACABAR COM VOCÊS DOIS!

 

Página 13 - Peso da República

A fúria passou, deixando para trás a exaustão.

Vanessa estava de volta na cama, o rosto enterrado nas mãos.

Gabi a confortava, afagando suas costas.

— Respira, nega... respira.

— Não adianta surtar agora.

— Tu tá toda quebrada.

- Fica quieta um pouco.

Ivan se aproximou da cama. O olhar dele não era de consolo.

Era o de um diretor de jornalismo que sabia que tinha uma história nas mãos.

Sua voz era calma, mas incisiva.

— Vanessa... eu sinto muito pela equipe.

— Mas eu preciso saber...

— O que valia a pena matar quatro pessoas e limpar uma cena de crime?

— O que você tem nas mãos?

Vanessa levantou a cabeça.

Seus olhos estavam vermelhos de choro, mas agora havia uma nova determinação neles.

Ela encarou Ivan.

(Vanessa - Secando as lágrimas)

— Puxa a cadeira, Ivan.

— E prepara o jurídico.

— Porque o que eu vou te contar vai derrubar a República.

 

 

Página 14 - Vermelho no Gráfico

Enquanto isso em seu Loft JC está incrédulo.

O lugar, antes moderno e arrumado, agora estava uma bagunça: caixas de pizza, roupas jogadas, louça suja.

JC estava em frente aos seus monitores, mas os gráficos agora estavam todos em vermelho, indicando perdas massivas.

Ele encarava a tela, em total desespero.

— Puta que pariu... Stop loss ativado de novo.

— Derreti a banca.

Ele se afastou da mesa, passando a mão pelo cabelo, frustrado.

E murmurou em tom de desolação.

— Outra semana ruim, mais prejuízo...

— As contas tão chegando.

— Mais um mês no vermelho e eu vou ter que vender o rim..

- Não sei o que eu vou fazer.

Ele deu um 360º na cadeira, olhou para a bagunça ao redor com um suspiro de derrota.

— Sem cash pra Dona Vera essa semana.

— Sobrou pro estagiário aqui.

— Bora limpar essa zona antes que crie vida própria.

Jc começou catando todas as roupas sujas e jogadas pela casa e se dirigiu a lavanderia, enquanto colocava as roupas na máquina.

Uma coisa chamou sua atenção a calça jogada bem ali no tanque.

A peça estava dura, manchada com o que claramente era sangue seco.

A memória voltou, silenciosa: ele carregando uma moça ruiva de jaleco branco para uma UPA, inconsciente e ensanguentada, em seus braços.

- Eita... essa é a calça que eu tava usando no dia que salvei aquela moça...

De volta ao presente, JC pegou a calça com a ponta dos dedos, com uma expressão de nojo.

— Eita... a calça do "resgate".

— O sangue já virou crosta.

— Esquece. Perda total. Vai pro lixo junto com a minha dignidade.

Do lado de fora de casa, JC estava prestes a jogar a calça em uma lata de lixo. No movimento, um objeto pequeno e metálico caiu do bolso e quicou no chão com um brilho dourado.

Tink!

JC pegou o objeto. Era uma cápsula dourada. Ele a examinou, o rosto em pura confusão e curiosidade.

— Ué...

— Que parada é essa?

— Skin dourada? Parece coisa de jogo...

Riiing! Riiing!

O telefone tocou alto, vindo de dentro de casa.

Ele correu para dentro, ainda com a cápsula na mão.

Ao pegar o aparelho, sua expressão de curiosidade se transformou em pura chateação e cansaço.

A tela brilhava com a palavra: PAI.

(Ele revira os olhos com força, aquela exaustão de filho cobrado).

— Ah, não... O velho não. Hoje não.

 

Página 15 - Fanatismo de Jaleco

No laboratório principal, Dr. Marcos estava sentado em sua mesa, a cabeça entre as mãos.

Ele parecia exausto, com um curativo visível na testa. Uma assistente apareceu na porta.

— Doutor Marcos. O senhor Magnus solicita sua presença na contenção.

Dr. Marcos suspirou, pegou um frasco de comprimidos, engoliu dois a seco e se levantou.

Deixou seu smartphone sobre a mesa, a tela ainda acesa, enquanto saía da sala.

— Certo. Já vou.

— Não tenho um minuto de paz nesse hospício..

Na sala de contenção, Herika estava sentada no chão da cela, exausta, mas com o olhar fixo em Magnus, que a observava do outro lado do vidro.

Ele estava no auge de sua arrogância, gesticulando como se estivesse dando uma palestra.

— Minha pequena Che Guevara...

— Você realmente achou que EU... Mauro Magnus... ia perder o sono por causa de meia dúzia de desocupados com cartazes de papelão?

— Eu derrubo governos antes do café da manhã. Vocês são... irrelevantes.

Herika o encarou.

Apesar do cansaço e do medo, havia um fogo de puro ódio em seus olhos.

— Você é doente.

— Um psicopata de terno

 

Magnus sorriu, genuinamente divertido com o insulto.

Ajeitou a gravata, alinhou o cabelo e passou as mãos pelo terno, admirando o próprio reflexo no vidro da cela dela.

— Psicopata? Que deselegante.

— Sou apenas um empreendedor visionário, querida.

— O mercado exige sacrifícios. Eu apenas os forneço.

Dr. Marcos, com o curativo na testa, entrou na sala de observação.

Magnus se virou para sair, passando por ele e dando um tapinha em seu ombro.

— Cuide bem da nossa visitante, doutor.

Magnus se dirigiu à saída, mas parou e olhou uma última vez para Herika por cima do ombro, com um sorriso maléfico.

- Bom... o dever me chama. Tenho ações para valorizar.

— Doutor, o brinquedo é seu.

— Divirtam-se, crianças. Mas não quebrem nada... caro.

O reflexo do Dr. Marcos no vidro da cela se aproximava.

Herika o encarou, preparando-se para a próxima rodada de tortura. A risada de Magnus ecoou pela sala.

HAHAHAHAHA!

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