O esconderijo era um antigo observatório astronômico abandonado, incrustado no topo de uma colina nos arredores da zona industrial. O teto de cúpula estava enferrujado, permitindo que fios de luz lunar atravessassem a escuridão, iluminando a poeira que dançava no ar.
Est trancou a porta de ferro com um vergalhão e se virou. Ele estava exausto. O esforço de ser o "escudo" de William consumia sua energia vital como uma bateria sendo drenada.
William estava sentado em um canto, as costas apoiadas contra um telescópio gigante que não mirava mais as estrelas. Ele tremia. Sem o contato constante de Est, o ruído em sua mente começava a vazar como estática de um rádio quebrado.
- Venha aqui... - William pediu, sua voz falhando. - Por favor.Est caminhou até ele. Suas pernas fraquejaram e ele quase caiu, mas William o amparou, puxando-o para o espaço entre suas pernas. O contato foi total: o peito de Est contra o de William, as mãos de Est espalmadas sobre os ombros largos do prisioneiro.
O silêncio caiu sobre eles como um cobertor pesado e quente.
- É como se eu estivesse morrendo e voltando à vida toda vez que você me toca - sussurrou William, fechando os olhos e encostando a testa no ombro de Est. - Por que você não me matou? Você teria uma medalha agora. Estaria dormindo em uma cama limpa, sem o barulho de um monstro na sua cabeça.
Est sentiu o cheiro de William - ozônio, metal e chuva. Era um cheiro perigoso, mas viciante.
- Eu nunca ouvi nada, William - Est confessou, sua voz abafada pelo pescoço do outro. - No centro de treinamento, eles nos diziam que o silêncio era nossa força. Que não ter uma frequência nos tornava puros. Mas era mentira. Não era pureza... era solidão.
Est afastou-se apenas o suficiente para olhar o rosto de William. Sob a luz da lua, as cicatrizes de William pareciam marcas de guerra contra si mesmo.
- Quando eu te toquei na cela, eu não ouvi apenas uma nota. Eu ouvi... você. Vi suas lembranças, a dor de ser isolado, o desejo de apenas silenciar o mundo por um segundo. - Est hesitou, seus dedos subindo para contornar a mandíbula de William. - Pela primeira vez, eu me senti real porque você me deu algo para ouvir.
William soltou um suspiro trêmulo. Ele pegou a mão de Est e a levou aos lábios, beijando a palma com uma reverência quase dolorosa.
- Você é o meu vácuo, Est. Mas se eu me apaixonar por você... se essa música que você ouve ficar mais alta... eu temo que eu não consiga mais me controlar. Minha frequência quer se fundir com a sua. Ela quer preencher cada espaço vazio que você tem.
- Deixe - disse Est, sua voz subindo uma oitava, carregada de uma coragem que ele não sabia que possuía. - Me preencha. Eu passei vinte anos sendo um deserto. Se eu tiver que queimar na sua música, que assim seja.
William envolveu a cintura de Est com seus braços poderosos, puxando-o para mais perto, até que não houvesse mais ar entre eles. A respiração de um se tornou a do outro. Naquele momento, a "Frequência Fantasma" começou a vibrar de forma diferente. Não era mais um aviso de perigo; era um ritmo. Um batimento rítmico, lento e profundo, que começou a ressoar pelas paredes do observatório.
Lá fora, a grama ao redor do prédio começou a se inclinar em ondas perfeitas, como se seguisse uma batida invisível. Os vidros do telescópio vibraram sem quebrar, emitindo um som cristalino.
William inclinou o rosto, seus lábios roçando a orelha de Est.
- Você consegue ouvir isso? - William perguntou, a voz rouca.
- Sim - Est ofegou, agarrando-se aos cabelos da nuca de William. - É a nossa música.
Pela primeira vez em suas vidas, eles não eram uma arma e um erro. Eram dois homens descobrindo que, no encontro entre o nada e o tudo, nascia a única sinfonia que realmente importava.
Mas a paz foi interrompida. No horizonte, as luzes azuis e gélidas dos drones de busca da Symphony começaram a varrer a colina. O governo não ia apenas caçá-los; eles iam tentar "formatar" a mente de Est para qu
e ele esquecesse o som de William.
