A consciência voltou de forma lenta e confusa.
Não havia dor, nem frio, nem calor comum. Apenas uma sensação estranha, como se ela existisse… mas ainda não estava completa. Quando você respira, percebe que não precisa. Seu corpo não era físico. Era algo etéreo, translúcido, sustentado por uma energia quente que pulsava de dentro para fora.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes, deixando a realidade se assentar.
Então é isso… pensei. Uma nova vida.
Memórias vieram à tona: um nome, um passado, uma existência comum. Maria . Aquela identidade ainda existia dentro dela, mas já não parecia pertencer àquele corpo, essência. Não havia tristeza, apenas uma acessibilidade tranquila.
— Está na hora de seguir em frente… — murmurou. — Maria cumpriu seu papel.
Sentiu algo se alinhar dentro de si, como se o próprio mundo confirmasse aquela decisão.
— A partir de agora… eu sou Catrina.
Ela flutuou alguns centímetros acima do solo. Não senti peso, nem cansaço, mas também senti claramente que estava fracassado. Aquilo não era um corpo carnal. Era apenas uma forma espiritual provisória, incapaz de sustentar grandes feitos. Ainda assim, algo dentro dela era diferente. Maior. Mais vasto.
Seus sentidos despertaram de repente.
Ela não precisava se concentrar para perceber: em um raio de cerca de uma milha ao seu redor, tudo parecia claro. O som do vento entre as folhas, o movimento de pequenos insetos, o fluxo da água correndo entre pedras distantes. Tudo chegava até ela com nitidez absurda. Não era apenas audição ou visão — era percepção.
— Sentidos divinos… — inventou, sem saber exatamente como sabia disso.
A energia quente que circulava em sua forma espiritual parecia responder a cada pensamento, estabilizando seu estado. Aos poucos, ela se acalmou e decidiu observar onde estava.
Uma floresta densa se estende ao redor. Árvores altas, antigas, cheias de vida. O ar era puro, carregado com o cheiro de terra úmida e flores silvestres. Não havia sinais de estradas, construções ou qualquer marca de civilização próxima.
Curiosa, ela sentiu o impulso de se ver.
Seguiu o som da água até um rio cristalino que cortava a floresta. Ao se aproximar, pairou sobre a margem e olhou para o reflexo na superfície calma.
O que viu a fez prender a atenção por longos segundos.
Sua pele era branca como porcelana, adornada por delicados detalhes dourados que não fazem parte de sua própria essência. Flores douradas se espalharam pelos braços e ombros, formando padrões elegantes. Vestia um longo vestido vermelho, ornamentado com cempasúchil , as flores tradicionais do Día de los Muertos, que proporcionam vivas, exalando um aroma doce e reconfortante.
Seus cabelos eram longos, negros como a noite, flutuando suavemente mesmo sem vento. Os olhos, dourados, brilhavam com uma luz serena. No rosto, uma maquiagem de caveira ricamente detalhada — não macabra, mas bela, simbólica, harmoniosa.
Ela era alta. Muito alto. Mais de dois metros e vinte, flutuando com elegância. Pequenas velas estavam presas ao vestido, suas chamas resultavam, iluminando suavemente ao redor. Sobre a cabeça, um enorme chapéu decorado com flores, fitas e detalhes dourados, de onde vinha um perfume doce misturado ao aroma das flores.
— Então… é isso que eu sou agora… — sussurrou.
Linda. Imponente. Divina.
Após alguns instantes, ela demorou o olhar do reflexo. A beleza não responde às perguntas mais importantes.
Onde ela estava?E em que época?
Decidida a descobrir, começou a se mover pela floresta. Não caminhava exatamente — deslizava pelo ar, seus pés raramente tocando o chão.
Os primeiros a notar foram os animais.
Pequenos pássaros enterrados nos galhos próximos. Coelhos saíram timidamente do mato. Raposas, cervos e outros animais se aproximam sem medo. Como espíritos puros, eles sentiam sua presença e eram naturalmente atraídos por ela.
Ela sorriu gentilmente e se agachou, estendendo a mão.
— Está tudo bem… — disse em tom calmo.
Os animais aceitaram o carinho. Ela passa a mão entre os pelos, sentindo uma conexão tranquila, quase natural. Enquanto avançava, eles a acompanhavam, formando uma pequena procissão silenciosa.
Então, um grande cervo surgiu entre as árvores. Majestoso, de galhada ampla, mudou-se sem hesitação. Ela parou e pousou a mão em sua cabeça.
— Você é tão bonito… — murmurou.
Quando de repente, os arbustos farfalham, um homem surgiu com o arco em mãos. Ele foi seguido o cervo por horas, guiado pela necessidade da aldeia e pelo instinto do caçador. No instante em que se mudou aquele ponto específico da floresta, algo mudou.
O ar ficou pesado.
Não era algo que pudesse ser visto ou tocado. Era uma pressão invisível, espiritual. Seu coração acelerou, os músculos enrijeceram, e um frio percorreu sua espinha. Seus instintos gritavam perigo — não o perigo de um predador, mas de algo que não alcançava o mundo comum.
Os animais estavam reunidos, imóveis, silenciosos demais.
O homem sentiu a garganta seca. Não havia nada visível diante dele… e ainda assim, tudo dentro de si dizia que algo estava ali. Algo antigo. Algo poderoso.
Seus joelhos fraquejaram.
O medo veio acompanhado de uma estranha reverência, como se sua alma reconhecesse uma presença muito acima da compreensão humana. Ele não ousou prosseguir.
Virou-se e correu.
Não porque tinha visto algo — mas porque sentia demais.
Enquanto fugia pela floresta, seu coração martelava no peito, a respiração descompassada. Ele não sabia explicar o que havia acontecido. Só sabia que havia entrado em um lugar que não era para mortais.
Catrina observou em silêncio.
Ela sentiu a alma do homem se afastando, ainda tremenda, carregada de medo e confusão.
— Um nativo… —.
Olhou ao redor, para a floresta intocada, para a ausência de qualquer sinal humano mais avançado. Ainda assim, franziu levemente a testa.
— Mas… de quando exatamente?
Não havia certeza. Apenas uma suspeita vaga, incômoda. O tempo naquele mundo ainda era um mistério.
Quando os animais começaram a se agitar, ela atraiu a mão com especial atenção.
— Fiquem aqui. Está tudo bem.
Relutantes, eles se salvaram.
Sozinha novamente, Catrina segue na direção de onde o homem havia fugido.
Se eu quisesse entender aquele mundo… primeiro começaria pelas pessoas que viviam nele.
