Seguindo a direção de onde o caçador estava fugido, eu avançava pela floresta, flutuando a poucos centímetros do solo. Galhos, raízes e pedras não me impediram, mas ainda assim eu senti o ambiente, senti o mundo ao meu redor com uma clareza quase desconcertante.
Depois de algum tempo, o vegetação começou a se abrir.
À frente, surgiu uma grande aldeia.
Cabana após cabana, fumaça subindo lentamente, pessoas caminhando, crianças correndo. Vida. Eu me aproximei instintivamente… e então parei.
Algo estava errado.
Uma sensação clara de ameaça percorreu minha essência. Não era medo comum, mas um aviso. Ao tentar avançar mais um pouco, a sensação se intensificou, como se eu estivesse forçando um limite invisível.
Recuar foi natural.
Escondida entre as árvores, observei uma aldeia de longe, tentando entender o que causava aquela pressão. Foi então que percebi.
Ao redor da aldeia, fincados no solo, havia pilares simples de pedra e madeira. Em cada um deles, chamas ardiam continuamente. Não eram fogueiras comuns.
Quando foquei meus sentidos nelas, a resposta foi imediata.
— Chamas… divinas.
Aquelas fogueiras carregavam poder. Antigo. Estável. Um poder que não me atacava, mas me barrava. A aldeia estava sob a proteção de outra divindade.
— Então é isso… — Pensei. — Estou invadindo o território de outro deus.
Não houve hostilidade direta, apenas jurisdição. Um limite claro.
(POV - Caçador)
O caçador retornou à aldeia, exausto. Seu corpo doía, a mente ainda mais. Ao entrar em sua cabana, encontrou seu irmão. Mal teve forças para se sentar.
— Você voltou cedo — disse o irmão, rindo. — Ficou com medo dos animais, foi?
— Não — respondeu, ofegante. — Eu… senti algo na floresta...acho que foi um espírito.
O irmão gargalhou.
— Espíritos agora? Você está ficando velho demais para continuar com suas mentiras.
— Eu não vi nada — insistiu. — Mas eu senti! Era… magnífico. Divino.
O riso cessou por um instante, apenas para retornar logo depois.
— Você está alucinando. Vá descansar. Vou sair para coleta de comida. Fique ai com seus espíritos hahaha.
Deixando-o sozinho. O silêncio da casa caiu pesado. Ele se deitou, mas não conseguiu dormir. A sensação… aquela presença… não o deixou.
Dias se passou.
Mesmo descansado, o pensamento persistia. O medo foi para esquecer. Uma curiosidade dizia para voltar.
Depois de dias de debate.
Relativo.
Ele se pediu, preparou suas coisas e deixou a aldeia em silêncio.
(POV - Catrina)
enquanto eu estava vigiando o lado de fora da vila, encontrei alguém saindo, eu o reconheci imediatamente, como o nativo que conheci.
Quando ele ultrapassou a fronteira invisível da proteção divina, sente a pressão cessar. Foi ali que decidiu sair da floresta e segui-lo, mantendo distância.
O caminho era o mesmo de onde eu estivera.
— Então você voltou… — Pensei.
Ele estava vindo até mim.
Em determinado ponto, ele parou. Seu corpo enrijeceu. A presença o envolvimento novamente.
O caçador respirou fundo, o medo evidente, mas não fugiu. Seus olhos percorreram a mata até se fixarem em um ponto vazio.
Ele sabia.
Caiu de joelho.
— Grande espírito… — sua voz sai baixa, respeitosa.— Qual é a sua função?— Por que me escolheste?— Por que aparece para mim?
Seu coração bate forte. Parte dele quer fugir. Outra parte quer permanecer ali para sempre.
A presença o envolve.
O medo diminui.
O calor no peito aumenta.
Ele sente como se estivesse sendo tocado com cuidado, como um afago invisível, algo que acalma sua alma de uma forma que ele nunca experimentou antes.
Lágrimas escorrem sem que ele perceba.
Ele inclina a cabeça ainda mais.
— Se deseja algo de mim… — diz, com a voz embargada. — Eu ouvi. Apenas… guie-me.
Sinto o peso do momento.
Meu poder ainda é frágil, assustador, mas compreendo que apenas a presença invisível não é suficiente. Ele precisa ver. Precisa entender.
Então decidi usar o resto do meu poder divino.
Concentro tudo o que ainda possuo e molda uma forma ilusória, apenas o bastante para que seus olhos mortais possam me perceber.
A hormonal silencia.
O ar parece se tornar mais denso.
Quando ele emerge o olhar, o impacto é imediato.
Medo o atravessa, mas não o domina.
Há admiração.
Há reverência.
E, acima de tudo, há um conforto profundo, como se aquela visão tocasse algo antigo dentro do seu coração — algo que sempre esteve ali, esperando.
Ele sente o peso da aparência diante de si, mas também presença aquela suave, acolhedora, quase maternal.
Sem pensar, ele se curva completamente.
Permaneço em silêncio por um instante.
Então, minha voz ecoa, baixa e serena, como um sussurro que atravessa a alma.
— Eu sou Catrina, a deusa da passagem e dos mortos.
